Por Davi Caldas

O título desse texto dialoga com o leitor cristão não sabatistas. A leitura que cristãos sabatistas fazem de Colossenses 2:16-17. O erro consiste em enxergar mais coisa no texto do que ele realmente diz. Vejamos o texto:

“Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (ACF).

O primeiro erro é ler que o apóstolo está proibindo as práticas mencionadas. O texto não diz isso. O texto diz “ninguém vos julgue”. Paulo não repreende as práticas, mas o juízo feito por determinado grupo aos irmãos colossenses no que dizia respeito a essas práticas. O juízo desse grupo é claramente condenado pelo apóstolo. As práticas dos colossenses não.  

O segundo erro é ler o “ninguém vos julgue” como “ninguém vos julgue por não guardar”.  Isso também não está no texto. A expressão “ninguém vos julgue” indica a condenação de um juízo, mas não a exata natureza dele. A princípio, “ninguém vos julgue” pode se referir à postura de guardar, de não guardar, de como guardar e de como interpretar.

Pelo contexto, podemos descartar a primeira hipótese. O grupo herético de Colossos não estava tentando demover a igreja das práticas que Paulo cita. Ao contrário, eles tinham um perfil ascético e buscavam acrescentar mais regras (humanas) ao cotidiano da igreja (vs. 8, 18, 20-23).

A segunda hipótese é possível, mas improvável. Nas primeiras décadas de Igreja, grande parte dos crentes era judeu, prosélitos ao judaísmo, gentios que frequentavam sinagogas e gentios simpatizantes do judaísmo. E grande parte dos primeiros plantadores de igreja também eram judeus. Assim, o cristianismo ainda era visto e entendido como uma vertente do judaísmo, não uma nova religião. E, evidentemente, a maioria das práticas judaicas ainda era muito forte entre os cristãos (At 13:14 e 42-44, 16:11-13, 17:1-4, 18:1-4; ver também At 2:46, 3:1-3, 5:20-21, 5:42, 9:2, 13:5, 14:1, 15:21, 17:10-17, 18:18-19, 19:8-10, 20:16, 21:25, At 22:3-6, 24:14-21, 25:7-11). Portanto, é pouco provável que a Igreja de Colossos não tivesse práticas judaicas. E se esse é o caso, então o juízo do grupo herético de Colossos não tinha a ver com uma postura de descumprimento das práticas judaicas, mas com outra questão.

Restam a terceira e a quarta hipóteses. Elas podem ser tratadas como uma só, já que o modo de guardar depende do modo de interpretar. Ora, esta hipótese é muito plausível. Entre os judeus do primeiro século, o modo como a Lei era interpretada e guardada tinha relevância até nos mínimos detalhes. Não bastava cumprir minuciosamente a Lei. Era necessário entender e cumprir a Lei da maneira correta. E qual era a maneira correta? Os grupos divergiam aqui. Para ficar apenas no embate entre Jesus e alguns fariseus, tomemos alguns exemplos. Jesus não interpretava que curar no sábado era um descumprimento da Lei. Alguns fariseus sim (Jo 7:21-24; Lc 13:10-17). Jesus entendia que a tradição do lavar as mãos não purificava moralmente o homem. Os fariseus criam que sim (Mt 15:1-20; Mc 7:1-23).

Qualquer bom estudante de teologia sabe que na literatura judaica, há centenas de discussões e de tradições a respeito de como interpretar e guardar diversos preceitos da Torah. Grande parte das tradições judaicas que se tornaram clássicas não tinha sólida base bíblica. Em relação ao sábado mesmo, uma vez que a Bíblia não oferece muitos detalhes sobre como guardar esse dia, a tradição possuía dezenas de regras que os rabinos desenvolveram ao longo do tempo, a fim de impedir o povo de transgredir o mandamento. Tudo extrabíblico, claro.

Portanto, não é nenhum absurdo considerar que o grupo herético de Colossos estava julgando os crentes não por um descumprimento das práticas judaicas, mas sim pelo modo como a Igreja estava interpretando e cumprindo essas práticas. Isso implica, claro, que diversas tradições de homens estavam sendo impostas pelos hereges. É o que o capítulo 2 diz explicitamente nos versos que já mencionamos. Ora, se esse é o caso, então temos um cenário bem diferente do que cristãos não sabatistas geralmente imaginam: a Igreja de Colossos ainda cumpria práticas judaicas, um grupo herético buscava acrescentar mais detalhes a essas práticas e Paulo apenas diz aos crentes para não levarem a sério esses julgamentos. Não há uma condenação sobre as práticas em si.

O terceiro erro é ler “sombras” como significando algo que passou e não tem mais utilidade alguma. O texto também não diz isso. O erro é facilitado pela tradução de muitas Bíblias. Versões como ARA, NAA, NVI, BKJ e BJ traduzem o verso 17 no sentido de uma ação finalizada. Assim, as práticas citadas são sombras do que “havia” ou “haveria” de vir. Isso dá um tom de que essas coisas já vieram. No entanto, versões como ACF, ARC, NVT, RV, BJC e NTLH traduzem o verso 17 no sentido de uma ação ainda futura. Assim, as práticas citadas são sombras do que “virá”, do que “há de vir” ou “das coisas futuras”. A versão que usei no início desse texto é a ACF, que adota o método de equivalência formal, isto é, prioriza a tradução literal dos termos e a manutenção das classes gramaticais originais, sem se importar muito com uma adaptação mais usual do texto à língua traduzida.

Qual é o meu ponto? Que os tradutores são picaretas ou burros? Claro que não. O trabalho de tradução da Bíblia é extremamente complexo. As equipes de tradução dessas Bíblias são pessoas sérias e especialistas em línguas antigas. Levam anos trabalhando na tradução mais fiel quanto possível. E, sem dúvida, cada uma dessas versões tem seus méritos. No entanto, justamente por ser um trabalho complexo, está sujeito a algumas falhas, imprecisões e divergências. Isso não torna impossível a Bíblia de ser entendida, pois no geral as traduções convergem entre si. Mas exige atenção a possíveis traduções imprecisas. Este é o caso de Colossenses 2:17.

Não obstante, como não sou especialista em grego bíblico e também não quero argumentar só para especialistas, vamos trabalhar na incerteza aqui: a princípio, qualquer uma das traduções pode estar correta. Caso a tradução correta seja a de sentido futuro – “sombras das coisas futuras” –, o que isso significa? Cristo já não veio? O que mais as sombras simbolizam? Pois bem, Cristo já veio. No entanto, ascendeu ao céu e prometeu que voltará. Até lá, ainda vivemos em um mundo de pecado, tristeza, maldade, dor e sofrimento. Os próprios crentes ainda não são perfeitos e todos temos que lutar contra nossa carne. Satanás e seus demônios ainda tentam diariamente a humanidade. Nós ainda não podemos ver a face de Deus. E o conflito entre o bem permanece. Sendo assim, ainda há muito para vir. Paulo, portanto, está dizendo que as práticas judaicas apontam para coisas que ainda virão.

Agora, e se a tradução correta for a de sentido finalizado – “sombras das coisas que haviam de vir” –, o que isso significa? Significa que Paulo está focando em promessas já cumpridas. Mas não exclui o fato de que há promessas a se cumprirem. Isso sugere que qualquer que seja a tradução, o intuito de Paulo não é argumentar que as sombras são inúteis porque todas as promessas já se cumpriram. O intuito é apenas argumentar que a sombra não é mais importante que a realidade. Desse argumento não se pode deduzir que a sombra não tem mais utilidade.

É claro que se a sombra se refere a uma realidade presente e esta realidade cumpre a função da sombra diretamente, a sombra se torna obsoleta. Este é o caso dos sacrifícios de animais no antigo templo judaico, bem como todo o serviço sacerdotal e o próprio templo. Jesus, ao morrer por nós na cruz, cumpre todas essas funções de uma vez só. E a eficácia desse sacrifício se aplica todos os dias, incessantemente (Hb 9:9-28 e 10:1-4). Neste caso, o sistema levítico já não tem razão de existir. Ele é cumprido em Cristo.

No entanto, esse raciocínio não se aplica indiscriminadamente a qualquer prática ritualística que a Bíblia ordena. Por que? Porque nem todas as práticas ritualísticas perderam a função com a morte de Cristo. Pensemos em algumas: orar, jejuar, reunir-se com os irmãos para cultuar a Deus e falar da Palavra, batizar, tomar da santa ceia, cantar louvores, etc. Tudo isso é rito. São práticas consideradas sagradas, ordenadas na Escritura, que nos aproximam de Deus e que simbolizam coisas maiores. Este último ponto é importante. Praticamente tudo o que fazemos para Deus aponta para algo maior. Por exemplo, orar é conversar com Deus. Mas ainda não conversamos com Deus face a face. Essa é uma promessa futura. Assim sendo, a oração é uma sombra de algo maior: a possibilidade de falar face a face com Deus. De igual maneira, o culto congregacional que fazemos neste mundo aponta para uma vida eterna na presença perceptível e plena do próprio Deus. Segundo o próprio Paulo, nada do que fazemos, vemos e vivemos nessa terra é pleno. Nós ainda vemos tudo em parte (I Co 13:8-12).  

Portanto, sim, muitas sombras têm função mesmo após a morte de Cristo. E podemos ir mais longe: algumas sombras continuarão válidas eternamente. Afinal, o que quer que façamos para Deus não será, obviamente, mais importante que o próprio Deus. Se eu crio um cântico, este cântico não será maior que Deus. Logo, o cântico é uma sombra de Deus. Nem por isso, criar e cantar músicas será proibido. Ao contrário, fará parte da adoração eterna. Assim o conceito de sombra não é sinônimo de “rito ultrapassado”, mas de práticas que apontam para uma realidade maior, não devendo assim receber importância superior ao objeto apontado.

E o que seria dar mais importância às sombras do que à realidade? Vamos fazer um exercício de raciocínio. Suponha que determinada igreja cria as seguintes regras: batismos só podem ser realizados em rios, pois Jesus foi batizado assim e devemos seguir seu exemplo; a santa ceia só pode ser realizada quinta à noite, pois foi numa quinta à noite que Jesus tomou sua última ceia com os discípulos e instituiu o rito; jejuns devem ser realizados quartas e sextas, pois é uma regra que consta em Didaquê 8:1*; os cultos devem ter três louvores porque Deus é uma Trindade; os homens devem usar túnicas, como nos tempos bíblicos. A partir daí, começa a espalhar esses ensinos e julgar as igrejas que não aderem essas regras.

Sem dúvida, esta igreja seria considerada herética e com razão. Por que? Porque a Bíblia não diz nem insinua que o batismo só pode ser realizado em um rio, que a ceia só pode ser realizada quinta à noite, que jejuns devem ser feitos quartas e sextas, que cultos devem ter três louvores e que túnicas são uma moda sagrada. Ora, se a Bíblia não entra nesses detalhes, há liberdade para que cada um faça como achar melhor. Ou seja, se criticássemos essa igreja, não se poderia deduzir daí que batismo, santa ceia, jejum, louvores e roupas são coisas obsoletas, sem importância e que devem ser anuladas, pois Cristo é a realidade. Estivesse vivo, Paulo poderia tranquilamente escrever uma carta aberta às congregações próximas da igreja problemática dizendo: “Que ninguém vos julgue por causa de batismo, santa ceia, jejum, louvores e roupas, porque tudo isso é sombra do que virá, mas o corpo é de Cristo”. E todos da região entenderiam que a crítica de Paulo não é às práticas em si, mas ao modo distorcido como elas estariam sendo interpretadas, observadas e ensinadas pela igreja herética.

Em suma, a igreja herética do nosso exemplo cai exatamente no erro de dar mais importância às sombras do que a Cristo. Para eles, não basta estar em Cristo. É preciso cumprir alguns preceitos do modo como eles julgam ser certos, mesmo a Bíblia nada dizendo a respeito. Isso tem tudo a ver com gnosticismo, que é o problema tratado por Paulo em Colossenses 1-2. No gnosticismo, havia sempre um conhecimento (gnose) secreto que precisava ser percebido pelos indivíduos para se tornarem mais elevados. Uma vida simples com Deus não é suficiente. A salvação está nos ritos, nos detalhes, nos mistérios. É por isso que Paulo diz que em Cristo é o mistério revelado (Cl 1:26-29), que em Cristo está toda a plenitude (Cl 1:19), que em Cristo estão todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2:3) e que os colossenses deviam fugir de filosofias, vãs sutilezas, tradições de homens e rudimentos do mundo (Cl 2:4,8,18,20,22). Paulo estava combatendo gnósticos.

A melhor forma de entender a argumentação de Paulo em Colossenses é compreendendo que quem estava em Cristo não precisava de mais nada. É claro que o conceito de estar em Cristo não significa apenas acreditar que Jesus morreu na cruz por nós, mas viver como um ímpio. Estar em Cristo é crer nisso, mas também crer que Jesus é nosso modelo e se esforçar para seguir esse modelo. Assim, quem está em Cristo busca acreditar no que Cristo acreditava, interpretar como Cristo interpretava, agir como Cristo agia, amar como Cristo amava. E tudo isso é realizado, claro, pela força do Espírito Santo.

Ora, isso era o que importava para Paulo. Se o indivíduo estava em Cristo, o modo como ele faria o que quer que fosse era irrelevante. Afinal, se ele estava em Cristo, ele também iria seguir as Escrituras como Cristo. Qualquer tradição que ficasse de fora, seria apenas tradição. E qualquer regra da Escritura seria cumprida do modo como Cristo interpretou e ensinou. Neste sentido, os detalhes, as tradições e os acréscimos dos hereges ascéticos não eram apenas errados, mas também inúteis para o crescimento na fé. 

O quarto e último erro é entender que se o sábado está incluído entre as sombras, certamente ele foi abolido. O ponto anterior já dá conta de responder a esse erro. Porém, podemos nos aprofundar um pouco mais: por que Paulo teria em mente que o sábado foi anulado? Seria por que Jesus se tornou nosso descanso? Ora, mas isso não anula a necessidade de ter um dia semanal para descansar e cultuar com os irmãos. Nem anula o fato de que é o sábado e não outro dia que aponta a Deus como Criador. Além disso, se o sábado serve para descansar das obras da semana e se conectar mais com Deus e os irmãos, a morte e ressurreição de Jesus não só não anula o sábado, como o torna mais especial e necessário. É nesse dia que quem trabalha a semana inteira poderá falar e ouvir mais de Jesus com os irmãos e recarregar as baterias para a próxima semana. O descanso sabático, portanto, tem potencial para nos ajudar a viver o descanso diário em Cristo.   

Não há, portanto, razão para supor que Paulo via o sábado como anulado porque cumprido em Jesus. A função do sábado permanecia. Ademais, uma vez que nas primeiras décadas de Igreja a guarda do sábado era normal (inclusive para os gentios simpatizantes do Deus de Israel), esse dia de descanso não era um empecilho para ninguém se achegar a Cristo. Assim, Paulo não tinha qualquer motivo para sequer pensar em questionar o sábado. E seu ponto, na epístola aos colossenses, de fato, não é esse.

Resumindo: a leitura que os cristãos não sabatistas fazem de Colossenses 2:16-17 falha por entender “ninguém vos julgue” como uma proibição, por considerar que “ninguém vos julgue” se refere necessariamente a um juízo por “não guardar”, por entender que sombras significam algo que passou e não tem mais utilidade, e por concluírem que se o sábado é sombra, então, não tem mais função. Nada disso está no texto.

Pela análise que fizemos, a melhor interpretação é a seguinte: um grupo de gnósticos com influência judaizante estava ensinando regras e conceitos extrabíblicos a respeito de como viver a fé cristã e guardar os mandamentos da Bíblia. A igreja de Colossos, como as demais, já tinha muitas práticas judaicas, incluindo a guarda do sábado, que era comum a todas as primeiras igrejas cristãs. O grupo gnóstico começa a fazer juízos sobre os irmãos em Colossos, dizendo que eles estavam observando os preceitos de modo errôneo, que havia detalhes e conhecimentos a mais que precisavam ser considerados. Alguns desse grupo chegavam a fundamentar suas ideias na suposta necessidade de cultuar anjos (v. 18).

Paulo, então, envia uma carta para alertar aos irmãos de Colossos que eles não precisavam fazer nada diferente do que já vinham fazendo antes. Bastava continuarem em Cristo. Todo o resto eram detalhes bobos, sem relevância, sem fundamento bíblico e que não deveriam tomar mais importância que o simples fato de estar em Cristo. No fim, tudo o que os colossenses faziam apontava para algo maior e, por isso, detalhes não estipulados pela Bíblia não importavam. Não há condenação a nenhuma prática judaica, muito menos a guarda do sábado. Paulo continuava tão fiel a Torah como sempre.

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* Didaquê é um documento cristão extrabíblico do final do primeiro século. Contém uma série de orientações e tradições cristãs e que supostamente teriam origem apostólica. No capítulo 8, verso 1, lê-se: “Que os jejuns de vocês não coincidam com os dos hipócritas [provável referência aos judeus]. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Vocês, porém, jejuem no quarto dia e no dia da preparação [sexta-feira]”.

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