Por Davi Caldas

Para julgar a veracidade ou falsidade da doutrina adventista, um crítico honesto só deveria evocar a crença nos dons proféticos de Ellen White como o último aspecto a ser analisado. Ellen White teve importância fundamental no adventismo? Sim. Mas não no sentido da formação da doutrina. Ela foi fundamental por outras razões, como pelo aconselhamento nas áreas de moralidade e saúde, pela exortação ao estudo da Bíblia, e por um ministério profético que não adicionou nenhuma nova verdade doutrinária extrabiblica para o povo de Deus, mas apenas enfatizou o que a Escritura já diz.

Nenhuma das doutrinas distintivas da IASD foi baseada em visões ou interpretações pessoais de Ellen White. Doutrinas como a guarda do sábado, a mortalidade da alma e o santuário celestial (as principais doutrinas adventistas não compartilhadas com a maioria das igrejas cristãs), foram desenvolvidas por outras pessoas e com base em estudos bíblicos. As duas primeiras mencionadas sequer partiram de adventistas, mas surgiram (ou melhor, foram resgatadas, já que são bíblicas) nos primeiros anos de reforma protestante. Muito antes da IASD, por exemplo, já havia uma Batista do Sétimo Dia (há registros de batistas do sétimo dia desde 1617, na Inglaterra) e também indivíduos sabatistas que concluíram a santidade do sábado de modo independente. E foi o adventista Joseph Bates, não Ellen White, que trouxe essa doutrina para ser estudada pelos primeiros adventistas. Curioso que seja, Ellen e seu marido James inicialmente não creram na doutrina sabática.

A doutrina da mortalidade da alma, por sua vez, foi levada para o adventismo através de George Storrs, um ex-ministro metodista que redescobriu a doutrina a partir dos escritos de Henry Grew, um ex-ministro batista. Nenhum dos dois chegou a ser um adventista do sétimo dia e o conceito que defenderam fora defendido por diversas pessoas de modo independente ao longo dos séculos, evidentemente muito antes da IASD existir.

Já as interpretações sobre o santuário partiram de Hiran Edson e Owen R. L. Crosier, que se voltaram ao estudo da epístola aos Hebreus em conexão com as profecias de Daniel 8, buscando entender o que ocorreria após os 2300 dias proféticos relatados ali.

É fato que Ellen White foi a principal voz no desenvolvimento da visão adventista de valorização e reforma da saúde. Entretanto, o benefício de um cuidado maior com a saúde é óbvio e nada possui de antibíblico. Na verdade, o cuidado com o próprio organismo, o tanto quanto possível, é o que se espera de alguém que entende que o seu corpo também pertence a Deus e não deve ser tratado de qualquer maneira. Aqueles que adotam um estilo de vida mais saudável, abstendo-se de álcool e fumo, primando por alimentos mais naturais, praticando exercícios físicos, valorizando o sono, etc. evitam doenças e envelhecem com mais disposição. Isso, evidentemente, é importante para que o Senhor utilize o indivíduo para a sua obra. Um cristão que destrua a sua saúde não poderá servir a Deus por muito tempo e com qualidade. A reforma de saúde, portanto, é uma maneira de honrar a Deus e o trabalho missionário. Dizer o oposto é ser ilógico.

Apesar de sua posição de destaque como líder e conselheira inspirada, sobretudo após a morte de seu marido, Ellen White afirmou expressamente durante seu ministério que não autorizava que seus escritos fossem usados como árbitro para disputas teológicas. Em vez disso, a Bíblia deveria ser a única fonte para estabelecer verdades doutrinárias. Durante toda a sua vida, a Sra. White conclamou os adventistas a irem à Bíblia. Por conta desse hábito, até algumas décadas atrás os adventistas eram conhecidos como “povo da Bíblia” e se destacavam em competições comuns de conhecimento bíblico.

Quando eu estava no processo de me tornar adventista, há pouco mais de cinco anos, tratei de ler os dois livros mais conhecidos de Ellen White: “O Desejado de todas as nações” e “O Grande Conflito”. Fiz as leituras com caneta e papel nas mãos, assim como quando li a Bíblia toda pela primeira vez, um ano antes. Resumi tudo em várias folhas. Eu queria ver se realmente o que ela dizia estava na Bíblia. Lembro de minha sensação. A cada página, a mesma constatação: “Essa mulher só fala de Bíblia”. A cada página, dezenas de citações bíblicas. Nenhuma página escapava de referências no Santo Livro.

Terminei as leituras sem encontrar qualquer ponto doutrinário, básico e de salvação que eu já não conhecesse pela leitura bíblica. Não achei nenhuma doutrina nova, surgida de visão ou ideias pessoais sem fundamento sólido.

Nesses cinco anos de adventismo, participei de muitos debates. Em nenhum deles, recorri ou me vi na necessidade de recorrer a textos de Ellen White para provar doutrinas. Sempre me vi cativo à Bíblia e à razão pura, como bem disse Lutero certa vez. Isso não reduz a importância que Ellen White teve para o movimento adventista, mas também não a superestima. Como disse, sua relevância não está na formação da doutrina adventista, a qual está baseada só na Bíblia, em doutrinas descobertas (ou redescobertas) por outras pessoas.

Mesmo a crença adventista de que essa mulher possuiu o dom da profecia não é um problema em si mesmo. O dom de profecia é bíblico, muitas pessoas o tiveram ao longo do tempo e nada impede que Deus o dê nos tempos atuais. Esse dom, contudo, não fará de nenhuma pessoa (como não fez de Ellen White) uma portadora de novas verdades doutrinárias extrabíblicas. Ou seja, nada nos tira da compreensão de que é na Bíblia onde encontramos tudo o que é necessário saber para nossa salvação e estilo de vida.

Uma leitura nos livros já citados, ou em outros famosos como “Caminho a Cristo”, demonstra o quanto a Sra. White foi crítica da crença em tradições. A impressão que tive ao ler “O Grande Conflito”, por exemplo, foi que White admirava fortemente os princípios da reforma protestante, exaltando a Sola Scriptura e não colocando o movimento adventista como algo separado, mas como uma continuação do processo.

Quando, portanto, um crítico do adventismo resolve iniciar seus ataques apontando Ellen White como um problema, apenas demonstra falta de conhecimento ou desonestidade. É absolutamente desnecessário começar por ela. O debate pode e deve ser conduzido para e pelas Escrituras Sagradas. Apenas após julgar as doutrinas pela ótica da Bíblia, podemos então trazer Ellen White para o centro do debate, não para retirar dela algo que possa endossar doutrinas (pois nunca foi essa a função de seus escritos), mas para que se possa averiguar se seu dom profético realmente existiu. Os numerosos casos de pessoas que tem ignorado isso deixam claro que, no geral, os críticos do adventismo não estão preparados para um debate de alto nível.

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