Por Davi Caldas

Há cinco anos eu e alguns amigos nos demos conta de que a Igreja Adventista corria um grande risco de ser chacoalhada por uma nova teologia; uma teologia de caráter progressista. Diversos jovens cristãos, incluindo adventistas, vinham sendo influenciados por discursos marxistas, feministas, abortistas e relativistas. A influência geralmente ocorria na faculdade. Os jovens entravam no ambiente universitário e, em grande parte, ou largavam a fé cristã, ou começavam a importar discursos secularistas para dentro da igreja, formando assim uma nova teologia.

O ponto mais assustador, no entanto, é que não havia, nas redes sociais, nenhuma página adventista falando especificamente sobre a incompatibilidade entre a fé cristã e essas filosofias. Foi por essa razão que o Reação Adventista surgiu. A ideia, desde o início, era ocupar esse espaço vago que existia dentre as páginas adventistas.

Felizmente, não muito tempo depois, vários grandes influenciadores adventistas passaram a combater essas filosofias também. Ainda assim, a teologia progressista cresceu muito em nosso meio e tem dado bastante trabalho para a IASD, contando com muitas páginas na internet e a defesa de alguns de nossos pastores e cantores.

O monstro que o progressismo se tornou hoje é um exemplo claro de como um problema não tratado em seu início pode se tornar bastante grande e incômodo no futuro. Enquanto o adventista médio estava preocupado com discussões teológicas secundárias e achando que falar de marxismo e feminismo era ser político, professores universitários e alunos militantes de movimentos seculares faziam a cabeça dos nossos jovens com coisa séria, capaz de realmente criar outro evangelho. Nossa igreja perdeu o timing.

É aqui que entra o meu apelo. Assim como apontei, há cinco anos, que o progressismo teológico poderia causar grandes problemas para a IASD se nada fosse feito, hoje tenho apontado outro grande risco: o do fortalecimento da teologia tradicionalista.

O que é tradicionalismo? Tradicionalismo é a teologia da tradição. Ela se apega a determinados costumes e ideias que não possuem base bíblica e os vendem como se fossem a mais pura ortodoxia. Para isso, apelam para a autoridade de alguns pioneiros adventistas (como se eles fossem um magistério infalível) e às suas interpretações distorcidas dos escritos Ellen White (ignorando não só uma leitura contextualizada, mas também o fato de que Ellen White ensinava o Sola Scriptura, o que já descartaria qualquer imposição de ideias que não fluam da Bíblia).

E por que há um risco do fortalecimento dessa teologia? Simples: porque os extremos se retroalimentam. O progressismo e o tradicionalismo são extremos opostos. Enquanto o progressismo busca fazer uma teologia baseada nos ditames da cultura contemporânea e dos desejos libertinos, o tradicionalismo procura fazer uma teologia com base em tradições e em suas concepções legalistas, farisaicas e fanáticas. Assim, quanto mais o tradicionalismo se fortalece, mais progressistas surgem em reação. E o contrário é igualmente verdadeiro: quanto mais o progressismo se desenvolve, mais tradicionalistas aparecem para se opor.

Dada a crise que temos vivido com o progressismo hoje, não é difícil prever que em breve teremos hordas de tradicionalistas pretendendo combater o progressismo. Na verdade, isso já tem acontecido. Assim como vi surgir dezenas de páginas progressistas nos últimos anos, agora tenho percebido a aparição de muitas páginas tradicionalistas. O perfil é sempre muito parecido: surgem com um discurso de combate ao progressismo e tão logo estão exaltando ideias tradicionalistas.

O risco desse movimento pendular não deve ser ignorado, pois ele sempre foi constante na história. Só para citar um exemplo do próprio adventismo, no início da década de 1920, o mundo protestante sofria as pressões do liberalismo teológico. Com medo disso, os adventistas abraçaram o tradicionalismo. Como resultado, a ala tradicionalista dominou a IASD pelos próximos 50 anos, trazendo problemas que deixaram suas marcas até hoje, como o perfeccionismo, o legalismo, o farisaísmo, as vãs acusações de liberalismo em qualquer discussão, as péssimas interpretações de Ellen White e uma negação prática do Sola Scriptura (que, aliás, é um vício tanto de tradicionalistas, quanto de liberais teológicos).

Se, por um lado, podemos nos alegrar porque atualmente vários líderes e leigos adventistas tem combatido o progressismo nas redes sociais, por outro lado, devemos nos manter alertas. É preciso observar com cuidado se alguns (ou muitos) desses líderes e leigos não estão aproveitando o embalo do combate ao progressismo para fazer do tradicionalismo o “guardião da ortodoxia”. Mais que isso: é preciso combater o progressismo sem deixar de desmascarar o tradicionalismo. Do contrário, amanhã estaremos sendo chamados de liberais por tradicionalistas que querem “sair na foto” como ortodoxos.

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