Por Davi Caldas

Nesta semana, certo indivíduo pichou uma série de ofensas a Deus e os cristãos no muro de uma Igreja Adventista do Sétimo Dia, no município de Novo Progresso, Pará. Uma pichação em especial me chamou a atenção. Disse o pichador na pichação: “Crente hipócrita”.

Assumindo que a frase é uma crítica à “hipocrisia do crente”, acompanhe meu raciocínio.

Se o indivíduo critica a hipocrisia do crente é porque crê que hipocrisia é algo errado. Se crê que é errado, isso significa que o indivíduo possui um padrão moral, um padrão de valores, onde há comportamentos certos e comportamentos errados. Logo, ao criticar o crente por hipocrisia, ele está querendo dizer que esse padrão, que ele crê ser verdadeiro, também deveria ser seguido pelo crente.

A implicação disso é que para o pichador em questão, há um padrão moral que está tanto sobre o crente quanto sobre ele. Isso é óbvio, já que não faria sentido ele criticar o crente por não seguir um padrão que está apenas sobre o próprio pichador. Portanto, o pichador crê numa moralidade que atinge a ele e aos crentes, provavelmente uma moralidade universal que todos deveriam seguir.

E por que o crente seria hipócrita? Bom, hipócrita é aquele que diz uma coisa, mas faz outra. Então, o pichador está querendo dizer que o crente professa verbalmente esse padrão moral universal (no qual o próprio pichador crê), no entanto, não age conforme aquilo que professa.

Mas, agora, veja: no padrão moral do crente, pichar muros seria algo errado. Afinal, é um ato de vilipêndio daquilo que é do outro. Isso seria não só falta de amor ao próximo como uma negação dos direitos de cada indivíduo, o que contraria o pensamento de que Deus criou cada um com sua individualidade e, portanto, direitos individuais. 

Esse padrão moral, como o leitor pode perceber, não está restrito à fé cristã. Outras religiões seguem o mesmo pensamento e as próprias leis civis pelo mundo, em maior ou menor grau, partem do pressuposto de que existem direitos individuais e eles devem ser respeitados. Assim, o que pertence ao outro não pode ser vilipendiado, salvo se houver autorização e consentimento real do mesmo.

O pichador, como já vimos, crê em um padrão moral que está sobre ele e sobre o crente, e critica o crente por professar esse padrão moral, mas não agir em conformidade com ele. Logo, o pixador crê exatamente no mesmo padrão moral que o crente e com base nesse padrão moral julga o crente por não segui-lo.

Aqui entra o paradoxo: (1) o padrão moral que o pichador crê coloca a pichação dos muros do próximo como um erro; (2) o pichador critica o crente por não seguir esse padrão moral; (3) o pichador picha o muro do crente. Logo, o pichador é hipócrita.

Como o pichador hipócrita pode criticar o crente hipócrita?

Lembro aqui as palavras de Jesus, no Sermão do Monte:

“[…] com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mateus 7:2-5).

Pichador hipócrita, tire primeiro a trave do seu olho.

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