Por Davi Caldas

Recentemente, nos circulos adventistas, se iniciou uma discussão muito forte a respeito do chamado “marxismo cultural”. Uma ala de adventistas afirma que “marxismo cultural” não existe, sendo apenas uma teoria da conspiração olavista. Já outra ala afirma que ele existe e que não é necessário ser olavista (ou mesmo de direita) para reconhecer isso.

A questão tem sua relevância para a vida espiritual. Afinal, se “marxismo cultural” existe, precisamos saber exatamente o que ele é e como um cristão deve se portar diante dele. Da mesma maneira, se ele não existe, é preciso saber se cristãos que creem nisso estão causando problemas para o evangelho em função dessa crença. Em outras palavras, para avaliar o conceito com olhos cristãos é preciso conhecer o conceito.

É bem verdade que minha tendência atual seria ignorar o tema. Infelizmente, paixões políticas à esquerda e à direita são um bezerro de ouro para muitos cristãos hoje e é cansativo discutir com essas pessoas. Entretanto, nesse tema em espécífico, creio que posso contribuir elevando o debate, pois o TCC que apresentei em 2017 para me formar em jornalismo na UERJ teve relação direta com o tema marxismo cultural. E como todo trabalho acadêmico/científico deve ser, eu não emito, na obra, um juízo de valor sobre se o marxismo cultural seria bom ou ruim. Eu apenas mostro que ele existe.

O tema central do trabalho é a influência de Antonio Gramsci sobre os jornalistas de esquerda no período do regime militar. Gramsci foi o mais poreminente autor a defender um marxismo menos economicista e mais preocupado questões culturais (como guerra de posições e modificação gradual do senso comum). No primeiro capítulo, eu faço uma exposição e análise das ideias do marxismo, traçando uma linha de desenvolvimento desde Marx, passando por Lenin e chegando a Gramsci. No capítulo 2, eu resgato a história da popularização do gramscismo no Brasil, como ele se tornou popular entre os jornalistas do período do regime militar e quais foram suas implicações para a década posterior ao fim do regime. No capítulo 3, eu discuto as semelhanças e diferenças entre o pensamento de Gramsci e Lenin e qual seria o papel de um “jornalista gramscista” dentro da perspectiva de Antonio Gramsci.

O ponto forte do trabalho, a meu ver, é que a maioria dos autores que usei para comprovar minha hipótese (a de que existiu uma forte influência do gramscismo entre os jornalistas brasileiros de esquerda no período do regime militar) é ou foi marxista no passado. Eu cito Alberto Aggio, Carlos Nelson Coutinho, Perry Anderson, Tarso Genro, Luciano Guppi, Bernardo Kucinski, Mino Carta, Alberto Dines, Milton Temer, etc. Também me servi de obras de mestrado e doutorado, o que deu maior solidez argumentativa à monografia. E, claro, eu cito diretamente passagens das obras de Marx, Engels e Gramsci.

De todos esses autores, chamo a atenção para Perry Anderson. Marxista convicto, ele publicou uma obra em 1976 chamada “Considerações sobre o Marxismo Ocidental”, onde discute justamente uma modalidade de marxismo emergente na Europa que atentava mais para questões culturais e tinha um modus operandi distinto dos marxistas clássicos. A terminologia pode ser diferente, mas o conceito é o mesmo do “marxismo cultural”. Sobre Gramsci, ele diz:

“A hegemonia dinâmica e flexível exercida pelo capital sobre o trabalho no Ocidente, através desta estrutura consensual estratificada, representou um obstáculo para o movimento socialista mais difícil de ultrapassar do que o que tinha encontrado na Rússia. As crises econômicas do gênero das que os marxistas anteriores consideravam ser a alavanca fundamental da revolução no capitalismo podiam ser contidas e atacadas por esta ordem política. Tal fato impediu todo e qualquer ataque frontal por parte do proletariado segundo os moldes russos. Seria necessária uma longa e difícil “guerra de posições” para a combater. Com este conjunto de concepções, isolado no seio dos teóricos ocidentais, Gramsci procurou descobrir diretamente uma explicação teórica para o impasse histórico fundamental que constituía a origem e a matriz do próprio marxismo ocidental” (ANDERSON, 1976, p. 104).

À época em que produzi esse TCC, escolhi uma banca formada por dois professores de esquerda, um deles fortemente marxista. Pela graça de Deus, fui muito bem avaliado, recebendo nota máxima e conquistando o título de bacharel em jornalismo. Entendendo que esse trabalho pode ajudar a quem realmente deseja fazer uma análise racional e acadêmica do tema, compartilho o PDF da monografia. É só baixar e ler. Boa leitura a todos!

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