Traduzido por Isabela Araújo

A ideia de que conceitos dependem de sua classe de referência não é nova. Um jogador de basquete pequeno é considerado alto em relação a quem nao é jogador de basquete; e um norte-americano pobre é rico para quem nao é norte-americano.

No entanto, pode-se pensar que um ponto azul é só um ponto azul. A cor azul pode ser definida por um comprimento de onda tão diferente de um conceito relativo como “pequeno” ou “rico”. Existe uma realidade objetiva por trás do azul, mesmo que os limites sejam vagos. Porém, em um novo artigo instigante da revista Science, a equipe de pesquisadores  Levari, Gilbert, Wilson, Sievers, Amodio e Wheatley mostrou que nós expandimos o que identificamos como azul quando a prevalência de azul diminui.

Por exemplo, na figura abaixo, os autores pedem aos entrevistados que identifiquem um ponto como azul ou roxo. A figura da esquerda mostra que, à medida que o sombreamento aumenta de “Muito roxo” para “muito azul”, mais pessoas identificam o ponto como azul, como é de se esperar (Os 200 testes iniciais e finais indicam que não há tendência para mudanças ao longo do tempo).

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Na figura da direita, no entanto, os pontos azuis foram menos prevalentes nos 200 ensaios finais e, após a diminuição da prevalência, a tendência para identificar um ponto como azul aumenta de forma dramática. Na condição de prevalência decrescente à direita, um ponto anteriormente identificado como azul apenas 25% do tempo, agora é identificado como azul em 50% do tempo. Mas e daí?

O que os autores mostram depois, é que o mesmo fenômeno ocorre com conceitos complexos para os quais, sem dúvida, gostaríamos de ter uma identificação consistente e constante.

As pessoas são suscetíveis a mudar seus conceitos induzidas por prevalência? Para responder a essa questão, os pesquisadores mostraram aos participantes de sete estudos uma série de estímulos e pediram para que eles determinassem se cada estímulo era ou não um exemplo de um conceito. Quando os pontos azuis se tornaram raros, os pontos roxos começaram a parecer azuis para os participantes; quando rostos ameaçadores se tornaram raros, rostos que eram neutros começaram a parecer ameaçadores; e quando propostas antiéticas de pesquisa se tornaram raras, propostas ambíguas começaram a parecer antiéticas. Isso aconteceu mesmo quando a mudança na prevalência dos casos foi abrupta. Mesmo quando os participantes foram explicitamente informados de que a prevalência dos exemplos mudaria e até mesmo quando eles foram instruídos e pagos para ignorar essas mudanças.

Supondo que o resultado seja replicado(os autores possuem 7 estudos que me parecem independentes, embora cada estudo seja relativamente pequeno em tamanho (20-100 participantes) e extraído de graduandos da Universidade de Harvard) isso tem muitas implicações.

Em 1960, o dicionário Webster definiu “agressão” como “Ataque ou invasão não provocado”, mas hoje esse conceito pode incluir comportamentos como não manter contato visual adequadamente ou perguntar às pessoas de onde elas são. Muitos outros conceitos como abuso, intimidação, distúrbio mental, trauma, vício e preconceito, também se expandiram com o passar do tempo.

Muitas organizações e instituições se dedicam a identificar e reduzir a prevalência de problemas sociais, desde pesquisas antiéticas até agressões sem justificativa. Mas os estudos sugerem que mesmo essas instituições bem intencionadas podem, às vezes, deixar de reconhecer os sucessos de seus próprios esforços, simplesmente porque eles veem cada vez mais exemplos que eles mesmos criam de determinado conceito em um contexto cada vez mais problemático. Apesar das sociedades modernas terem feito progressos extraordinários na resolução de uma ampla gama de problemas sociais, da pobreza e analfabetismo à violência e mortalidade infantil, a maioria das pessoas acredita que o mundo está piorando. O fato de que os conceitos se expandem quando a ocorrência diminui pode ser uma fonte desse pessimismo.

O artigo também nos dá uma maneira de pensar de forma clara sobre mudanças na “janela de Overton”. Por exemplo, quando o sexismo declina, a janela de Overton encolhe de um lado e cresce do outro lado, para o que antes não era considerado sexismo, um exemplo é que a afirmação “Homens e mulheres possuem preferências diferentes que podem explicar as escolhas de trabalho” se torna violentamente sexista.

Mas por que nossos padrões não deveriam mudar com o tempo? A maioria das pessoas na década de 1850 que acreditavam que a escravidão era uma abominação, teriam rejeitado a ideia do casamento interracial. A surra de esposas não era considerada crime até um passado recente. O que o racismo e o sexismo significam mudou ao longo do tempo. Estes são exemplos de mudança de conceito ou de progresso? Eu diria que são progresso, mas o experimento do ponto azul de Levari et al. sugere que, mesmo que os conceitos objetivos não se transformem pela indução da prevalência, então os conceitos subjetivos certamente o farão.

A questão, então, não é impedir o progresso, mas reconhecê-lo e não ser enganado ao pensar que o progresso não aconteceu apenas porque nosso conceitos mudaram.

Nosso comentário (Reação Adventista):

Esse interessante texto e o estudo em que ele se baseia apenas confirma uma verdade cada dia mais patente: o politicamente correto implementado por progressistas, seja nos movimentos feministas, negros ou LGBT, facilmente se perdem discutindo minúcias na medida em que os grandes problemas do passado são vencidos. O efeito disso é terrível, pois tais movimentos acabam por perder o senso das proporções é a propria noção de porque existem. Perde-se nesse processo a sensibilidade para perceber erros e resolver problemas relevantes. Ganha-se histeria, postura vitimista e vocação perseguitória. Infelizmente, os movimentos secularistas sempre tem o mesmo fim: acabam perseguindo moinhos de vento. Apenas o evangelho pode manter em nos sempre uma visão equilibrada, racional e justa das coisas. Voltemos ao evangelho. Sola Scriptura.

Artigo original:

https://marginalrevolution.com/marginalrevolution/2018/06/sexism-racism-never-diminishes-even-everyone-becomes-less-sexist-racist.html

 

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