Por Davi Caldas

Na primeira e na segunda parte desse texto, analisamos as razões de 1 a 12 pelas quais acreditamos que o sétimo dia da semana, o sábado, deve ser guardado pelos cristãos. Hoje veremos as últimas três razões restantes. O texto foi particionado por conta de seu tamanho. Para quem não leu a primeira e a segunda parte, clique aqui e aqui para ver. Quem já leu, podemos continuar.

Razão 13: Atos 20:7-8 e I Coríntios 16:1-4 não provam que o domingo é santo

Há dois textos na Bíblia que geralmente são usados por não sabatistas para sustentar que os primeiros cristãos consideravam o primeiro dia da semana (“domingo”) como um dia santo e que se reuniam nele para adorar. Em outras palavras, seria o dia que substituiu o sábado. O primeiro texto está em Atos 20 e afirma:

“No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viajem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até a meia-noite. Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde estávamos reunidos” (Atos 20:7-8).

Essa passagem não prova absolutamente nada. Para começar, é mais provável supor que os irmãos estiveram reunidos durante todo o dia de sábado e apenas parte do primeiro dia da semana. Por quê? Explicamos. Sabe-se que os judeus antigos não contavam o dia como contamos hoje. Para os judeus, o final do dia acontece realmente ao final do dia, isto é, ao pôr do sol. Quando o sol se põe, termina um dia e começa outro. Assim, o que entendemos como sexta-feira à noite é o início do sábado para um judeu; e sábado à noite, o início do primeiro dia da semana, chamado domingo. Este modo de contar o dia não só é mais lógico como é bíblico. Em passagens como Gênesis 1:5, Levítico 23:32 e Lucas 23:54, é possível observar que o escurecer de um dia já era considerado o início do outro.

Tendo isso em mente, só precisamos ligar os pontos. Se a reunião aconteceu na parte escura do primeiro dia da semana (o domingo), se estendendo até a meia-noite, então, na verdade ela ocorreu na noite de sábado. E se aconteceu na noite de sábado, presume-se que os irmãos haviam ficado reunidos durante todo o sábado, adentrando o primeiro dia, já que Paulo viajaria pela manhã.

A versão NHLT (Nova Tradução na Linguagem de Hoje) da Bíblia confirma que a reunião descrita em Atos 20 ocorreu no sábado à noite. Numa edição que tenho em casa dessa versão, podemos ler:

“No sábado à noite, nós nos reunimos com os irmãos para partir o pão. Paulo falou nessa reunião e continuou até a meia noite, pois ia viajar no dia seguinte. No andar de cima, onde estávamos reunidos, havia muitas lamparinas acesas”.

Essa mesma edição traz uma nota de roda pé sobre a expressão utilizada “sábado à noite”. A nota diz: “Conforme a maneira de contarem as horas do dia, o último dia da semana (sábado) terminava ao pôr do sol; aí começava o primeiro dia da semana (domingo)”.

A verdade é que, conquanto o texto não prove nada, acaba oferecendo bons indícios de que os irmãos estiveram juntos durante todo o dia de sábado, que era o dia de descanso, e adentraram o domingo. Faz bastante sentido, já que Paulo iria viajar no dia seguinte e um judeu evitaria gastar o dia de sábado viajando para longe. Como também não era aconselhável viajar à noite, à época, Paulo deve ter aproveitado o tempo após o pôr do sol para se alongar em seus discursos, pretendendo viajar na manhã de domingo. Se o texto se referisse a domingo à noite, como pretendem os cristãos não-sabatistas, então esse período da noite já seria o início da segunda-feira, que é o segundo dia da semana e não o primeiro.

Agora, ainda que realmente o texto se referisse ao domingo, tornamos a dizer: isso não prova absolutamente nada. A existência do sábado como dia santo, fixo e específico para o Senhor não impede que as pessoas se reúnam em outros dias também, a fim de adorar a Deus, ouvir uma pregação, conversar sobre as Escrituras, louvar, almoçar com os irmãos, orar e pregar o evangelho. Se há um tempo livre durante a semana para fazer isso é lícito que se faça. Por que não? Isso não significa, de forma nenhuma, tirar a santidade do sábado e transferi-la para outro dia. Assim a mera reunião dos cristãos no primeiro dia da semana não indica observância. Ademais, no próprio livro de Atos dos Apóstolos somos informados que os primeiros cristãos tinham o hábito se reunir todos os dias no templo e partir o pão na casa das pessoas (Atos 2:46-47). Isso não quer dizer que eles guardavam todos os dias.

O argumento de que o primeiro dia referido em Atos 20 seria santo porque a Santa Ceia foi realizada na ocasião também é inválido. Linguisticamente falando, não há certeza se a expressão “partir o pão” usada no texto refere-se à Santa Ceia ou a um lanche comum entre o irmãos. Mesmo que a expressão se refira à Santa Ceia nesta passagem, o fato é que Jesus Cristo não deixou nenhuma observação sobre em qual dia a Ceia deveria ser feita, nem com qual frequência. Desta forma, parece que isso fica a critério da Igreja, podendo o rito ser feito em qualquer dia da semana e até mesmo em vários dias da mesma semana. E se é assim, o mero fato de se fazer a ceia em um dia não o torna um dia de guarda. Não há qualquer relação de uma coisa com a outra.

Aliás, se realmente fosse necessário escolher um dia específico da semana para se fazer a Ceia, o mais lógico seria fazer na quinta-feira, ao entardecer, já que foi nesse dia que Jesus tomou sua última ceia com os discípulos e instituiu o rito para a posteridade. Contudo, segundo as palavras de Paulo, Jesus não estabeleceu dias para o rito. Limitou-se a dizer: “Fazei isso em memória de mim” (I Co 11:24).

O outro texto geralmente usado pelos não sabatistas para sustentar a santificação do domingo pelos primeiros cristão está em I Coríntios 16. Diz a passagem:

“Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua propriedade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for. E, quando tiver chegado, enviarei, com cartas, para levarem as vossas dádivas a Jerusalém, aqueles que aprovardes. Se convier que eu também vá, eles irão comigo” (I co 16:1-4).

A interpretação que os cristãos não-sabatistas fazem desse texto é muito frágil. Para eles, o texto está dizendo que Paulo coletava as ofertas no domingo, o que provaria que os cultos passaram a ocorrer nesse dia. Ainda que as coletas fossem feitas aos domingos não há qualquer relação entre coleta de dinheiro e santidade de um dia. Doações não tornam um dia santo e a coleta não precisa ser feita em um dia de guarda. Tal ideia não é lógica, nem bíblica. Uma coleta pode, claro, ser feita em qualquer dia da semana. Ou seja, a mera coleta num domingo não prova nada.

Mas note que Paulo sequer diz que as coletas seriam feitas aos domingos. O apóstolo diz, na verdade, que cada irmão deveria separar, em casa (ou seja, não era no templo ou em alguma reunião santa), a sua oferta, num domingo, e ir juntando. O que Paulo parece ter em mente é o seguinte: a semana começa no primeiro dia. Então, no primeiro dia, os irmãos já devem começar a separar o dinheiro. Isso até se torna um indício de que o sábado ainda era guardado pelos primeiros cristãos. Afinal, se ninguém trabalhava no sábado, o mais lógico era começar a juntar dinheiro no domingo mesmo, o primeiro dia de trabalho.

E quando Paulo pegaria as ofertas? No domingo? Não é isso o que ele diz no texto. Ele afirma que as pegará quando for embora. O conselho de Paulo sequer pode ser usado para sustentar a ideia de que essas coletas eram um dos momentos do culto. Afinal, o que Paulo pretendia era simplesmente adiantar as coletas para que isso não fosse feito no momento em que ele estivesse indo embora. O conselho, portanto, não expressa algo que era normativo. Expressa um pedido de Paulo para que se fizesse algo diferente, não por questão religiosa, mas por uma questão prática e relacionada à própria preferência de Paulo. Era um pedido que visava a própria organização pessoal de Paulo. Assim, não há nada que prove, nesse texto, que as coletas tornavam o dia santo (ou só podiam ser feitas em um dia santo) e que, portanto, o domingo era santo.

Razão 14: Romanos 14:5-6 e Gálatas 4:8-11 são textos mal interpretados

Os textos de Romanos 14:5-6 e Gálatas 4:8-11 são muito frequentemente usados por cristãos não sabatistas para sustentar que o mandamento do sábado foi anulado no Novo Testamento. Mas essas interpretações estão erradas. Vamos analisar primeiro o texto de Romanos, expondo-o desde o primeiro verso.

“Acolhei o que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que tudo pode comer, mas o débil come legumes; quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio Senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha a opinião definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não come e dá graças a Deus” (Romanos 14:1-6).

O argumento não-sabatista é que a observância do sábado deixou de ser obrigatória. A interpretação, no entanto, possui alguns problemas. Em primeiro lugar, é muito pouco provável que Paulo esteja falando sobre leis do Antigo Testamento nesse trecho. Note que ele inicia o assunto exortando os irmãos a que não discutam opiniões. E deixa claro que comer ou não legumes, separar ou não dias tanto faz. A discussão, portanto, parece girar em torno de hábitos, costumes, tradições e não de leis.

Isso fica mais claro quando percebemos que não há qualquer lei no Antigo Testamento que imponha um regime alimentar baseado apenas em legumes. O apóstolo ainda vai dizer alguns versículos à frente: “É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar” (Rm 14:21). Ora, fica difícil sustentar que a discussão é sobre leis depois de um verso desse. Não existe nenhuma lei no Antigo Testamento que pregue a abstinência total e geral de carne ou de vinho. Por conseguinte, quando Paulo fala quem faz diferença de dias, muito provavelmente não está falando nem dos dias festivos que prefiguravam o Messias, nem do sábado.

Mas então a discussão é sobre o quê? Que costumes estavam em jogo ali? Não há uma resposta definitiva. Porém, há algumas hipóteses plausíveis. Possivelmente, muitos dos cristãos romanos foram influenciados por ideias baseadas no ascetismo, levando-os a advogarem a abstinência de carne e a observação de dias fixos de jejum. Nos primeiros séculos de cristianismo era comum aparecerem grupos que advogavam algum tipo de ascetismo. Alguns viam o mundo material como algo pecaminoso, por exemplo. Outros entendiam o casamento e o sexo como coisas impuras. Houve grupos que chegaram ao cúmulo de negar que Jesus tivesse vindo em carne (já que sendo o mundo material pecaminoso, Jesus Cristo só poderia ter vindo em espírito). Também se sabe que muitos cristãos e judeus do primeiro século tinham por hábito separarem dias fixos para jejum.

Portanto, não é um absurdo supor que um tipo de ascetismo (talvez não muito forte, já que o apóstolo procura ser bem tolerante na carta) criou divergência de opiniões na igreja. Paulo parece ter percebido que, embora as tais práticas abstêmias não fossem leis, também não eram necessariamente antibíblicas e geravam um efeito positivo nos cristãos mais fracos na fé. Assim, em vez de condená-los, preferiu ser mais tolerante e pregar a mútua compreensão. Se essa interpretação estiver correta, não há abolição do sábado nesta passagem.

Mas suponhamos que Paulo realmente estivesse falando de leis cerimoniais que foram abolidas. Ou ainda: de leis e hábitos também. A questão dos legumes poderia se referir ao fato de que alguns cristãos evitavam comer carne, já que os açougueiros ofereciam as carnes que vendiam aos ídolos. Paulo trata dessa questão em I Coríntios 8. Neste caso, os dias mencionados poderiam ser os dias festivais, de fato. E talvez até outros dias mais, que fossem visto como especiais por tradição. No entanto, sendo o sábado uma instituição pré-queda e incluída nos dez mandamentos, não há razão para crer que Paulo a tivesse em mente nesta passagem. Até porque a observância do sábado, conforme vimos na parte 2 desse texto, não gerou qualquer controvérsia no primeiro século.

Tendo analisado o texto de Romanos, vamos ver agora o texto de Gálatas:

“Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando outra vez aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco” (Gálatas 4:8-11).

Aqui o argumento dos não-sabatistas é que o sábado faz parte desses rudimentos fracos e pobres, sendo assim um erro retornar a ele. Algumas observações importantes devem ser feitas aqui. Em primeiro lugar, notemos que Paulo relaciona os rudimentos fracos e pobres à antiga idolatria praticada pelos gálatas, quando ainda não eram cristãos. Isso abre a possibilidade de que o problema dos gálatas não fosse só uma onda judaizante, mas uma onda sincretista, que misturava elementos judaizantes (como a observação dos festivais do Antigo Testamento) a outros elementos de origem pagã. Talvez por isso o apóstolo relacione os rudimentos fracos e pobres à vida pagã original. Se este é o caso, é forçoso crer que o grande inimigo aqui fosse o sábado.

O problema dos gálatas era o de abraçar rituais, tanto judaicos quanto pagãos, como meios de salvação. É óbvio que os rituais que melhor se encaixam nesse contexto são os que não possuem nenhum valor, seja por terem sido cumpridos no sacrifício de Cristo ou por terem origem supersticiosa ou pagã. O sábado, como temos visto, não possui essa mesma natureza e, portanto, não há razão para crer que ele estivesse incluído entre esses dias.

Ainda que esse elemento pagão não estivesse envolvido no problema e que o apóstolo apenas estivesse traçando um paralelo entre os gálatas idólatras do passado e os gálatas judaizantes do presente, isso também não nos força a crer que o sábado faça parte dos rudimentos fracos e pobres. Já vimos nas outras duas partes desse texto que o sábado não se originou com a mesma função dos mandamentos cerimoniais que prefiguravam o Messias. Por mais que o sábado possa assumir um caráter de símbolo de Cristo, já que Cristo é o descanso para a nossa alma, o fato é que o sábado surge originalmente para ser um dia de descanso espiritual no qual relembramos que Deus é o Criador. Não há, portanto, razão para supor que o sacrifício de Cristo aboliria sua função.

Isso fica claro quando lemos toda a epístola. Em Gálatas 3:23-29, o apóstolo diz que a lei nos serviu de condutor para Cristo. Ora, é óbvio que Paulo está enfatizando aqui o caráter preditivo das leis da Torá, expresso por meio das leis cerimoniais. Isso explica porque essas leis se tornaram obsoletas. Já em Gálatas 5:1-10, o apóstolo menciona a lei cerimonial da circuncisão para exemplificar o tipo de escravidão a qual os gálatas estavam retornando. Aqui podemos perceber claramente que o problema maior causado pelos judaizantes era sempre a imposição da circuncisão e, por conseguinte, era sempre a circuncisão o maior exemplo do apóstolo para ilustrar a transitoriedade das leis que prefiguravam a Cristo. O sábado, porém, não possui essa natureza.

Razão 15: Colossenses 2:16-17 também é um texto mal interpretado

A última razão que elencamos para guardar o sábado é que o texto de Colossenses 2:16-17, à semelhança de Romanos 14 e Gálatas 4, tem sido mal interpretado. O texto diz o seguinte:
“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haveriam de vir; porém o corpo é de Cristo” (Colossenses 2:16-17).

Esse talvez seja o texto mais forte utilizado contra o sábado. Afinal, ele é o único dentre os que supostamente anulam o quarto mandamento, que cita diretamente o nome do dia santo. À primeira vista, realmente parece que o mandamento está sendo abolido. Mas a postura que devemos ter é de sempre interpretar os textos bíblicos levando em conta todo o restante das Escrituras. Vimos nas três partes desse estudo 14 razões para guardar o sábado. Utilizamo-nos da Bíblia toda e em nenhum momento vimos alguma margem para postular que o mandamento teria sido abolido. Não há, até o momento, qualquer razão para essa suposta abolição. Não há respaldo bíblico. Então, é muito mais provável que a passagem não esteja abolindo o sábado. Mas o que o texto quer dizer?

O primeiro passo para entender o texto é não tentar ler mais do que está escrito. Note que Paulo não diz: “Não pratiquem esses hábitos”, mas que ninguém deve julgá-los por esses hábitos. Paulo também não diz: “Que ninguém vos julgue por NÃO praticarem essas coisas”, mas apenas que ninguém deve julgá-los com base nelas. Isso faz toda a diferença porque muda o suposto foco de Paulo na abolição das práticas descritas para o foco em quem estava efetuando esses julgamentos, ou ainda, no conteúdo que esses julgamentos possuíam.

O contexto da epístola reforça que o foco de Paulo era quem julgava e o conteúdo dos julgamentos. No primeiro e no segundo capítulos, o apóstolo trata de exaltar a natureza e a obra de Cristo. Em Colossenses 2:3-4, Paulo afirma que em Cristo estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento. Assim, ninguém deveria enganá-los com raciocínios falsos. Isso parece ser um alerta contra ideias gnósticas, muito comuns nos primeiros séculos de cristianismo. Geralmente, os grupos gnósticos acreditavam em conhecimentos secretos que santificavam e/ou levavam à salvação. Em contraposição, Paulo afirma que todos os conhecimentos estão em Cristo.

Mais para frente, Paulo relaciona esses raciocínios falazes à tradição de homens (v. 8) e inclui entre os ensinos e posturas dessa tradição o culto aos anjos, o uso de supostas visões como validadores de suas ideias (v. 18) e o ascetismo (vs. 20-23). A insistência de Paulo em dizer que as ideias partiam de tradição, preceitos e doutrinas de homens faz lembrar muito as palavras de Jesus contra as tradições dos fariseus (Mt 15:1-20) que ele entendia como contrárias aos mandamentos de Deus.

Ao que tudo indica, portanto, o foco principal de Paulo nos dois primeiros capítulos de Colossenses não era a prática de rituais do Antigo Testamento, mas sim os julgamentos que alguns estavam fazendo baseados em distorções da Palavra de Deus e doutrinas de homens. Essas distorções e doutrinas humanas estavam competindo com a supremacia de Cristo como Salvador e Senhor de todos os tesouros do conhecimento. Repare que só no capítulo 2, o apóstolo alerta quatro vezes para que ninguém fosse julgado por esses grupos (vs. 4, 8, 16 e 18).

Para entender melhor essa ideia, vamos imaginar que o apóstolo Paulo existisse nos dias de hoje. Ele fica sabendo que uma das igrejas que ele plantou começa a sofrer influencia de alguns irmãos heréticos. Esses irmãos advogam que o batismo só tem validade se for feito em um rio, que a santa ceia só tem valor se for realizada às noites de quinta, que só tem o Espírito Santo quem fala em línguas estranhas, que devemos jejuar uma vez por semana e que nós devemos andar de túnicas.

Paulo então escreve uma carta para essa igreja exaltando a supremacia de Jesus Cristo e alertando que ninguém deve ser julgado por esses falsos professores. Em dado momento da carta, afirma: “Ninguém, pois, vos julgue por causa de batismo, santa ceia, dom de línguas, jejum ou vestes, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haveriam de vir; porém o corpo é de Cristo”. Percebe? O foco de Paulo não é falar contra as práticas mencionadas, mas invalidar os julgamentos feitos por esses professores em relação a essas práticas. É o que ocorre no texto real de Colossenses.

Há pelos menos duas possíveis objeções a esta interpretação. A primeira é que Paulo faz uso da terminologia sombras para se referir às práticas. A mesma terminologia é usada na epístola aos Hebreus 8:6 e 10:1 para se referir aos sacrifícios de animais oferecidos pelos sacerdotes do Antigo Testamento. O argumento anti sabatista aqui é que “sombra” define tudo o que não tem importância ou que é temporário, já que sombra é apenas uma projeção do objeto real iluminado pela luz. Se o sistema sacrifical era uma sombra de Cristo e foi abolido, logo tudo o que era sombra de Cristo também foi abolido. E se o sábado estava incluído entre as sombras, foi anulado também.

O argumento está correto? Não necessariamente. Em primeiro lugar, o sábado não surge originalmente com a função de ser sombra de Cristo. Por mais que ele possa assumir também essa função (como já dissemos), o sábado tem a função original de nos servir de descanso espiritual e lembrete de Deus como O Criador. Óbvio que isso tem tudo a ver com Cristo, já que Ele é o Criador e foi Ele quem fez o sábado. Mas não existe, na instituição do sábado, o objetivo primário de simbolizar a Cristo temporariamente até o seu sacrifício. Nenhum texto da Bíblia nos fornece essa interpretação. Assim, não há qualquer lógica em dizer que o sacrifício de Cristo afeta a sua existência.

O sábado é uma sombra de Cristo no mesmo sentido que o casamento é uma sombra do nosso relacionamento com Deus, o batismo é uma sombra da nossa morte e ressurreição em Cristo e a santa ceia é uma sombra do sacrifício de Jesus e da promessa da sua volta para buscar a Igreja. Nenhuma dessas sombras foi anulada pelo sacrifício de Cristo. E é por isso que a analogia que fizemos faz sentido. Paulo poderia escrever uma epístola orientando os irmãos a não serem julgados por batismo, santa ceia e outras sombras que ainda são válidas, sem com isso estar anulando essas sombras.

O que Paulo faz é apenas enfatizar a supremacia de Cristo em relação a todos os rituais, antigos ou novos. Assim, é com base em Cristo que devemos nos orientar, não com base em tradições de homens. Os falsos professores de Colossos advogavam o sábado, mas um sábado imbuído de tradições humanas, baseado em um sistema repleto de distorções e rudimentos humanos. Todo o sistema estava errado e obliterava a obra de Cristo. Essa era a preocupação do apóstolo e não a guarda bíblica do sábado. Da mesma forma, em nossa analogia, Paulo não estaria preocupado com a prática do batismo, da santa ceia, do jejum e etc., mas com as distorções.

Isso parece encontrar apoio na evidente diferença entre as epístolas de Colossenses e as epístolas de Gálatas, Romanos e Hebreus. Em Gálatas 5:2, por exemplo, Paulo sustenta que “se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará” (Gl 5:2). Na epístola aos Romanos, Paulo claramente se opõe à obrigatoriedade da circuncisão (Rm 2:25-29, 3:30, 4:9-12). E durante toda a epístola aos Hebreus, lemos que o sistema sacrifical não tem mais valor. Não resta dúvidas nestas epístolas que Paulo está se colocando contra as práticas em si, por elas terem se tornado obsoletas. Mas no caso de Colossenses, não é esse o foco.

A segunda objeção que pode surgir é que em Colossenses 2:14 é dito que Jesus Cristo cancelou o “escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz”. O argumento é que esse escrito de dívida seria a lei mosaica. Assim, todas as práticas mencionadas depois, o que inclui o sábado, teriam sido cravadas na cruz.

A conclusão anti sabatista é precipitada. Como já vimos na parte 2 desse estudo, Paulo se referia ao sistema anterior a Jesus Cristo como “ministério da morte” e “ministério da morte”. Entretanto, isso não era uma crítica à lei de Deus. Os termos usados por Paulo apenas enfatizavam que sem Cristo não existe salvação. A lei, sem Cristo, apenas condena à morte. E ela condena à morte exatamente por ser boa.

Cristo vem justamente para solucionar esse problema. Ele nos livra da condenação que a lei impõe sobre nós por sermos pecadores. Assim, quando Paulo menciona o “escrito de dívida”, ou ele se refere ao caráter condenatório da antiga aliança, ou a algum tipo de registro de pecados (uma ideia comum no pensamento judaico) e que, evidentemente, possui as ordenanças que não cumprimos, já que é um escrito de dívida. A ideia aqui não é, de forma alguma, a abolição do decálogo e das leis morais de Deus, mas sim das condenações que nós carregávamos quando não havia o sacrifício de Jesus Cristo para concretizar a promessa de nossa salvação. Nossas condenações é que foram cravadas na cruz e não nossas obrigações para com Deus.

O argumento central de Paulo, portanto, não é que as práticas mencionadas depois por ele foram cravadas na cruz. Seu argumento central, que é o foco de sua carta, é que os colossenses não deveriam se deixar julgar por tradições humanas (ainda que fossem tradições em parte baseadas nas Escrituras), pois a fonte de autoridade para o proceder do cristão não são os ditames de meros homens, mas as palavras e a obra daquele que cravou nossas condenações na cruz.

Resumo e Conclusão

Ao longo desse estudo, dividido em três partes, elencamos quinze razões pelas quais acreditamos ser ainda válido o mandamento do sábado. As razões foram: (1) É uma instituição pré-queda; (2) é um mandamento do decálogo; (3) o domingo não se tornou santo no lugar do sábado; (4) a continuação do sábado cria uma unidade entre Antigo e Novo Testamento; (5) a ressurreição não precisa ser simbolizada pelo domingo, pois há o batismo e a santa ceia para isso; (6) o sábado enfatiza Deus como o Criador, o que é algo importante na Bíblia; (7) o sábado sempre teve caráter universal, sendo os gentios convidados a o guardarem também; (8) Jesus não “trabalhava” no sábado, ao contrário do que se alega; (9) Jesus não usou sua autoridade para abolir o sábado; (10) A Igreja do primeiro século tinha fortes raízes judaicas, tendo permanecido como uma vertente do judaísmo por pelo menos as primeiras quatro décadas; (11) Os discípulos e apóstolos não desprezavam a lei, sobretudo o decálogo; (12) o sábado jamais teve relação com a circuncisão ou outros mandamentos de caráter temporário; (13) os textos de Atos 20:7-8 e I Coríntios 16:1-4 não provam que o domingo é santo; (14) Romanos 14:5-6 e Gálatas 4:8-11 não anulam o sábado; (15) Colossenses 2:16-17 também não anula o sábado.

Não encontramos qualquer razão bíblica e lógica para crer que o sábado tenha sido abolido. O sacrifício de Jesus não anulou o sábado pela simples razão de que o sábado não foi concebido originalmente como uma instituição temporária com a função de simbolizar algum aspecto da vinda do Messias. O sacrifício de Cristo em nada altera a vigência do sábado da mesma forma que a vigência do sábado não altera em nada a validade do sacrifício de Cristo na vida de quem o aceita. Ao contrário, quando bem guardado, ele se torna muito relevante para gerar uma maior aproximação e intimidade com Cristo, desacelerando nossa mente semanalmente para que não nos percamos do alvo por conta das distrações da vida, sejam elas boas ou ruins.

Publicidade