Por Davi Boechat

Em toda a história da igreja cristã, movimentos se levantaram para defender, de forma apaixonada, a volta aos tempos da igreja primitiva. No século XVII, os Quaker abalaram as estruturas da Igreja Anglicana com a antinomia eclesiástica. Defendiam que o cristianismo autêntico só poderia ser alcançado sem organização formal. Para eles, era necessário deixar os templos, liturgias e ministros de tempo integral, além dos donativos – ofertas e dízimos. Agora, no contexto brasileiro, despontam os desigrejados. Nos Estados Unidos da América, Frank Viola e Dan Kimball são os maiores expoentes do movimento, tendo publicado dezenas de obras sobre o assunto. Caio Fábio, ex-ministro presbiteriano, é a principal voz no Brasil. Todos estão abaixo de um movimento genericamente classificado como ‘igreja emergente’, que eclodiu na última década com propostas muito semelhantes as dos quaker, mas repaginadas em aspectos pós-modernos.

Como supracitado, abandonando prédios, credos e sermões, eles creem estar mais próximos a um cristianismo supostamente enraizado em bases apostólicas. Dizem que todos esses elementos são imposições históricas que engessaram o cristianismo, afastando-o da simplicidade do evangelho. Surgem daí as cruzadas contra a “religiosidade”, que vemos frequentemente em posts de crentes no Facebook.

Como alternativa à pompa e circunstância das organizações, emergentes propõem reuniões informais. No lugar da igreja, o Starbucks. Os emblemas da santa ceia são substituídos por bagel e café. [1] Kimball foi pontual ao sintetizar o ideário que advoga no título do livro “Eles gostam De Jesus, mas não da igreja”, publicado pela editora Vida em 2011.

Fossemos investir em uma pesquisa exaustiva na história, exemplos não faltariam. Em refutação aos pensamentos advogados por esses grupos, os livros “Não Quero um Pastor Bacana” e “Por que Amamos a Igreja”, ambos escritos pelo ministro reformado norte-americano Kevin Deyoung em parceria com o jornalista Ted Kluck, ex-simpatizante da igreja emergente. No Brasil, as obras foram publicados pela editora Mundo Cristão. Elas mostram as abundantes fragilidades argumentativas dos emergentes, que são muitas vezes contraditórias e paradoxais. Definitivamente aqueles que buscam um cristianismo autêntico fora da igreja desejam ser amigos de Jesus, mas rejeitam sua noiva.

Ponto nevrálgico nessa discussão é o fato de que, recorrendo ao passado, não encontraríamos um cristianismo tão pueril e romântico quanto desejado pelos restauracionistas eclesiásticos – sejam os históricos (como os quaker) ou modernos (emergentes). Problemas e apostasia sempre fizeram parte da igreja, como mostram as obras supracitadas. O novo testamento está repleto de relatos e admoestações contra heresias, dissensões e imoralidades. Talvez, na Bíblia dos emergentes, as cartas pastorais de Paulo tenham sido retiradas.

Como adventistas, cremos que, de fato, verdades foram relegadas durante a história do cristianismo: o sábado é um emblema disso! No entanto, pontos relevantes como este seguem sendo ignorados pelos dois grupos até então abordados, que se prendem a aspectos superficiais. O purismo buscado no passado não é encontrado no relato da Escritura, mesmo que em uma leitura superficial dela. Na história adventista, a realidade é a mesma.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia passou por problemas semelhantes em sua trajetória. As cisões, por assim dizer, são um dos pontos comuns com as demais denominações, assim como a maior parte das crenças.

Em toda a história, grupos com parâmetros equivocados sobre o significado da igreja remanescente, munidos de Testemunhos de Ellen White analisados com uma exegese equivocada, marcados por uma altivez que beira o sectarismo, saudosos de um tempo que não viveram, ensejam um retorno ao primeiros passos do movimento, crendo que, no passado, a igreja foi mais fiel, pujante e laboriosa.

Com apenas 25 anos de fundação, o tradicionalismo já se manifestava de forma intensa na igreja. A apoteótica assembleia da Conferência Geral de Minneapolis, em 1888, uma das reuniões mais relevantes para a história do movimento adventista, é prova disso. Conforme relata George Knight, “as reuniões resultaram em pelo menos quatro importantes questões teológicas: (1) um reexame das bases para a autoridade em resolver questões bíblicas e teoló­gicas, (2) uma compreensão mais plena da justificação pela fé conforme relacionada à mensagem do terceiro anjo, (3) pro­gressos importantes na posição adventista sobre a Trindade, a natureza divina de Cristo e a personalidade do Espírito Santo e (4) investigações sobre a natureza humana de Cristo.” [2]

Knight destaca o fato de uma das estratégias utilizadas pelas nas discussões foi recorrer ao “uso inválido da autoridade [e] confiança na tradição adventista para resolver pendências.” Essa foi a estratégia adotada por Uriah Smith e George Ide Butler, então presidente da igreja. Eles “haviam empregado repetidas vezes o argumento de que, visto que as posições adventistas sobre Gálatas e Daniel haviam permanecido como verdade durante 40 anos, elas não deviam mudar.” A situação chegou a tal ponto que Smith “chegou mesmo a dizer que, se a tradição estivesse errada, ele teria de renunciar ao adventismo”! [3]

Seus oponentes, Ellet Joseph Waggoner e A. T. Jones, “rejeitaram o apelo à tradição. Ellen White estava do lado dos reformadores.”

Observando a permanência ao apelo a autoridade na história adventista, Knight comenta: “Curiosamente, a década de 1990 testemunhou o ressurgimento do antitrinitarismo e do semiarianismo com base na ideia de que esta era a crença da maioria dos primitivos adventistas.” O historiador diz ainda: “Isso apelo parece estranho para uma igreja fundada na oposição ao uso da tradição como autoridade teológica”. [4]

Essa citação guarda gritante relevância. Seguir a tradição adventista integralmente, conforme alerta o trecho acima, colocaria-nos à margem do cristianismo, afinal, para seguir integralmente o pensamento dos pioneiros, seria necessário negar a divindade de nosso Salvador e a pessoa do Espírito Santo, dois erros crassos na compreensão da divindade.

Se não bastasse a história do movimento adventista como exortação ao uso de outras fontes que não a Escritura para balizar a teologia, Ellen White deixou escritos suficientes a esse respeito. Em resposta aos que pretendiam fazer de seus escritos fonte de discussão doutrinária na assembleia de 88, ela disse:

“Examinem cuidadosamente as Escrituras para ver o que é a verdade”, ela escreveu. “A verdade não perde nada pela investigação minuciosa. Que a Palavra de Deus fale por si mesma, que ela seja sua própria intérprete. […] Há uma incrível indolência entre uma grande parte de nossos ministros, que estão dispostos a que outros [presumivelmente Butler e Smith] pesquisem as Escrituras para eles. Eles tomam a verdade de seus lábios como um fato positivo, mas não conhecem a verdade bíblica através de sua própria pesquisa individual e pela profunda convicção do Espírito de Deus em seus corações e mentes. […] Muitos se perderão porque não estudaram a Bíblia de joelhos, com fervente oração. […] A Palavra de Deus é o grande detector de erro. A ela […] tudo deve ser levado. A Bíblia deve ser nosso padrão de toda doutrina e prática”. [5]

Os que pretendem purificar a igreja tendo como parâmetro o passado parecem esquecer-se que grande parte das repreensões deixadas por EGW (indevidamente utilizados como matéria prima para apontar as falhas da igreja hoje) foram escritas alertando para problemas latentes de sua época. Os escritos, é claro, têm valor atemporal. Mas é necessário reconhecer que eles tinham como destinatários primários alguns indivíduos. Compilações como “Testemunhos para Ministros”, que em alguns trechos mostram a indolência de obreiros à época, e “Conduta Sexual”, ambos traduzidos e publicados em português pela Casa Publicadora Brasileira, são prova disso.

Seria leviano dizer que os grupos restauracionistas estão de todo errados. É impossível ignorar que a igreja precisa de mudanças. Fazer o contrário exigiria fechar os olhos para as tristes realidades latentes. No entanto, o diagnóstico dos erros precisa ser assertivo para que, assim, o remédio certo seja ministrado.

Faz-se necessário aqui distinguir os quakers e desigrejados dos dissidentes. Para os dois primeiros grupos, que sustentam a visão de que o problema da igreja reside em sua estrutura, a constatação de Idauro Campos, reverendo congregacional brasileiro, é pertinente:

“A solução dos problemas da igreja contemporânea não é eclesiológica, mas pneumatológico, pois é de um despertamento vital que a igreja precisa para impactar a sociedade pós-moderna. Restauração de modelos eclesiais pouco poderá fazer em prol do testemunho da igreja como agência de transformação histórica. Na verdade, o movimento dos desigrejados parece desconsiderar o poder do Espírito Santo par renovar a fé dos cristãos. Apostam tudo no restauracionismo eclesial primitivo. Ao insistir no niilismo eclesiástico como única forma de restauração da dinâmica da fé, os desagregados não levam em conta que novos despertamantos espirituais podem ocorrer nos mais diversos formatos eclesiais.” [6]

Aos dissidentes adventistas, em especial os que acreditam que haverá reviramento em toda a igreja, Ellen White diz, enfaticamente:

“Temos esperança de ver toda a igreja reavivada? Tal tempo nunca há de vir. Há na igreja pessoas não convertidas, e que não se unirão em fervorosa e prevalecente oração. Precisamos entrar na obra individualmente. Precisamos orar mais e falar menos.” [7]

Diferentes dos quaker do passado, os desagregados de hoje e os dissidentes de sempre, é preciso reconhecer que em nossa história não encontramos apenas virtudes. Ao fazer a retrospectiva é necessário filtrar os erros. Fazendo assim estaremos adotando uma postura coerente. Dessa forma, estaremos imunes ao erros que causaram impasses no passado.

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[1] Em “Por que amamos a igreja”, livro citado no terceiro parágrafo, são mencionados diversos modelos alternativos de igreja adotados pelos emergentes. A legitimidade de cada um deles é questionada pelos autores.

[2] KNIGHT, George, “Em Busca de Identidade”, página 94, Casa Publicadora Brasileira

[3] IDEM, página 96

[4] IDEM, página 203

[5] IDEM, página 94 e 95

[6] CAMPOS, Idauro, “Desigrejados: Teoria, História e Contradições do Niilismo Eclesiástico”, BV Books, página 174

[7] WHITE, Ellen G. “Reavivamento Verdadeiro”, Ellen G. White Estate, página 7

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