Por Davi Caldas

Já vimos até aqui três argumentos lógicos para a existência de Deus: o argumento cosmológico (parte 1 e parte 2), o argumento teleológico e o argumento moral (parte 1 e parte 2). A coerência científica e a validade lógica dos 3 nos faz constatar que existe um agente transcendente, causador do universo, inteligente, pessoal e do qual procedem os valores morais. Nós denominamos esse agente Deus.

O argumento que explanarei hoje, o argumento da razão humana, segue a mesma linha dos demais no sentido de mostrar que nada no mundo faz sentido lógico se não existir tal agente. Trata-se de um argumento interessante e que deixa o ateísmo numa situação bem pior do que a deixada pelo argumento moral, no que tange à razão. Vamos estudá-lo?

Introdução

O argumento da razão humana pode ser resumido da seguinte maneira:

(1) Tudo o que nós pensamos, afirmamos, validamos e/ou provamos, bem como todo o conhecimento que apreendemos, fazemos por meio do raciocínio (razão);

(2) então, todo o conhecimento possível depende da validade do raciocínio;

(3) só que não há como provar que nosso sistema de raciocínio é válido, porque todo pensamento é validado pelo próprio raciocínio, de modo que não posso validar a razão usando a própria razão;

(4) assim, a não ser que aceitemos a razão como válida (sem provar isso), não há como comprovar, afirmar ou validar nenhum pensamento.

Até aqui, não há nada que nos leve a sustentar que Deus existe. O argumento tão somente mostra que nós, humanos, somos obrigados a aceitar a razão como válida sem poder provar isso, pois ela é o ponto de partida para todo pensamento. Se colocarmos em dúvida nosso sistema de raciocínio, automaticamente ficaremos impossibilitados de fazer qualquer afirmação. Então, tudo o que nos faz sentido pode, na verdade, não fazer sentido nenhum, se a razão estiver errada.

C. S. Lewis afirma em seu livro Milagres:

“A menos que o raciocínio humano seja válido, nenhuma ciência pode ser verdadeira. Conseqüentemente, nenhuma consideração do universo pode ser verídica, a menos que leve em conta a possibilidade do nosso pensamento ser uma percepção real” (Pág. 29).

E complementa em outro ponto do mesmo livro:

“(…) de todas as alegações apresentadas pela mente humana, a única que o naturalista [pessoa que não acredita em sobrenatural] não pode negar sem cortar a própria garganta (falando em termos filosóficos) é a de que o raciocínio é válido” (Pág. 59).

Isso é o que o argumento da razão humana sustenta. Contudo, suas implicações são uma evidência poderosa para a existência de Deus. Isso porque, embora o teísta e o ateu pareçam estar no mesmo barco ao ter que acreditar na validade da razão sem poder provar isso, uma análise mais detida da situação mostra que o teísta tem boas evidências para acreditar que o raciocínio humano é válido, enquanto que o ateu tem evidências contrárias à validade da razão. Vamos entender isso melhor.

As implicações do argumento

Para o teísta, a origem do universo e dos seres que nele habitam se deve a uma causa inteligente e superior, que deu a cada mecanismo do universo e dos organismos vivos complexidade, finalidade, funcionalidade e estabilidade. As leis do universo são fixas e funcionam. As partes que compõem cada organismo apresentam e seguem suas finalidades enquanto o curso natural das coisas não é interrompido por alguma patologia (o que não é a regra funcional dos organismos).

Desta forma, a razão humana é um produto da criação divina. Nosso raciocínio tem valor e pode ser usado para avaliar qualquer pensamento porque, de fato, uma causa racional é a responsável pela existência da razão. A razão do teísta não é um produto de causas não-inteligentes, de eventos aleatórios e sem uma finalidade.

Em contraponto, para o ateu (ou naturalista), o raciocínio humano não provém de uma inteligência superior. O ateu crê que todas as coisas que existem se resumem a causas naturais. Então, o seu raciocínio é apenas um conjunto de átomos que se movem em seu cérebro e que começaram a se mover no cérebro da humanidade um dia, sem um objetivo e sem nenhuma regulação.

A razão, para o pensamento ateísta, surge de causas inteiramente não-racionais, não-intencionais e não-inteligentes. É algo mais ou menos como dizer que a teoria da relatividade é fruto de uma cadeira ou de um pé de maçã ou do longo desenvolvimento de uma mangueira. C. S. Lewis diz:

“Todos concordam em que a razão, até mesmo a sensibilidade, e a própria vida chegaram posteriormente à natureza. Se não existe nada além da natureza, então a razão deve ter vindo à existência por um processo histórico, e para o naturalista esse processo com certeza não se destinava a produzir um comportamento mental que levasse à descoberta da verdade. Não houve um Planejador, e, de fato, até que surgissem os pensadores, não havia verdade nem falsidade” (Pág. 35).

O que C. S. Lewis deixa claro aqui é que, para o pensamento naturalista, a razão surge de um processo cego, sem inteligência. Lewis continua em outro capítulo:

“(…) como já vimos, uma linha de pensamento perde toda a sua racionalidade no momento em que se apresenta como resultado de causas não racionais. Quando a natureza, por assim dizer, se aventura em coisas que dizem respeito a conceitos racionais, ela só consegue destruí-los. (…) A natureza só pode invadir a razão para matar, mas a razão pode penetrar o território da natureza para fazer prisioneiros e mesmo colonizar. Cada objeto à sua frente neste momento – paredes, teto, móveis, este livro, suas mãos lavadas e unhas cortadas – dá testemunho da colonização da natureza pela razão, pois nenhuma dessas coisas estaria nessas condições se a natureza tivesse seguido seu curso” (Pág. 47).

Em outras palavras, a natureza não é uma pessoa. Ela não é racional. Ela é uma simples entidade que funciona automaticamente, sem reflexões, seguindo leis fixas que, para o ateu, surgiram por mero acaso. Tudo, para o ateu naturalista, veio à existência por meio de causas não-racionais. Assim, a sua razão não faz sentido algum. Como crer na validade de uma razão que advém da não-razão? O leitor acreditaria em uma teoria cuja a validação se baseasse no número que eu tirei no dado? “Se cair 1, 2 ou 3, a teoria é válida. Se cair 4, 5 ou 6, a teoria e inválida”. Podemos dizer que esse raciocínio é certo, mesmo sabendo que ele se baseia na aleatoriedade e não-razão do dado? Então, como é que podemos acreditar em uma razão que não provém de Deus?

Considerações Finais

De modo interessante, C. S. Lewis, em seu livro, conecta o argumento da razão com o argumento moral. Para ele, tanto a crença na moral objetiva como na razão, não fazem sentido se não existir um agente racional e moral exterior ao universo, do qual a moral e a razão procedem. Afirmar que somos morais e racionais quando nossa moral advém de causas não-morais e nossa razão advém de causas não-racionais é incoerente com a própria noção de moral e racionalidade.

O curioso é que, com estes argumentos, o ateu é colocado contra a parede de um modo extremo. Sua moral objetiva já não faz mais sentido. Sua razão já não faz mais sentido. Nenhum pensamento seu pode ser afirmado como correto. Nenhuma concepção moral sua pode ser tomada como verdadeira. Adeus às ciências. Adeus à obrigação de cada um fazer o “bem”. Adeus à toda e qualquer afirmação contundente.

A não ser, é claro, que ele aceite a ilusão de que existe uma moral objetiva e uma razão, mesmo sabendo que isso não faz sentido em um universo sem Deus. Mas, neste caso, o ateu estará tendo uma fé maior e muito mais cega do que qualquer pessoa que acredite em Deus. Ela não acreditará em Deus, mas crerá com todas as forças em ilusões como a moral e a razão.

“Dessa forma, o materialismo estrito contradiz a si mesmo, pela razão apresentada pelo professor doutor Haldane: ‘Se meus processos mentais forem inteiramente determinados pelo movimento dos átomos em meu cérebro, não há razão para supor que minhas crenças sejam verdadeiras […] e, portanto, não tenho razão para supor que meu cérebro seja composto de átomos’ [Possible Worlds (Mundos Possíveis), p. 209]. (…). 29

“Se o fato de os homens terem idéias como devo e não devo puder ser explicado completamente por causas irracionais e não morais, então essas idéias não passam de ilusão. (…) exclui a própria possibilidade de estarem certos. Pois quando os indivíduos dizem: “Eu devo”, certamente pensam que estão dizendo algo verdadeiro quanto à natureza da ação proposta, e não simplesmente falando dos próprios sentimentos” (Pág. 61 e 62).

Em suma, querido amigo leitor, se cremos na existência e na validade da razão e da moral, não existe uma alternativa mais honesta e racional do que acreditar também na existência de Deus. Termino a postagem com mais uma citação de Lewis:

“Não existe saída nessa direção. Se é para continuar a fazer julgamentos morais (e não importa o que afirmemos, continuaremos fazendo isso), então devemos acreditar que a consciência do homem não é produto da natureza. Ela só tem valor se for derivada de alguma sabedoria moral absoluta, uma sabedoria moral que existe absolutamente “por si mesma” e não seja produto de uma natureza não moral e não racional. Da mesma forma que o argumento do capítulo anterior nos levou ao conhecimento de uma fonte sobrenatural do pensamento racional, igualmente o argumento deste capítulo nos leva a uma fonte sobrenatural para uma fonte sobrenatural para nossas idéias sobre o bem e o mal. Ou seja, agora sabemos alguma coisa a mais sobre Deus. (…) Se você, como eu, pensa que o julgamento moral é um tipo de raciocínio, então dirá: ‘Agora sabemos mais sobre a Razão Divina’” (Pág. 65 e 66).

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Referências:

1. “Milagres, de C. S. Lewis. – Editora: Vida, São Paulo, 2006. – Pág. 29
2. Idem. – Pág. 59
3. Idem. – Pág. 35
4. Idem. – Pág. 47
5. Idem. – Pág. 29
6. Idem. – Pág. 61 e 62
7. Idem. – Pág. 65 e 66

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Posts da Série:

Parte 1: Argumento Cosmológico

Parte 2: Fugindo do óbvio

Parte 3: Argumento Teleológico

Parte 4: Argumento Moral

Parte 5: Um mundo amoral

Parte 6: Argumento da Razão

Parte 7: A possibilidade lógica de milagres

Parte 8: Argumento da Ressurreição

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