Por Davi Caldas

Um fenômeno que venho observando há alguns anos é a aproximação de conservadores (em matéria de política e costumes) ao catolicismo romano. O fato se dá, em parte, como um resultado direto da oposição à pautas socialistas e da esquerda política em geral. Uma vez que os movimentos de esquerda possuem, em sua quase totalidade, histórico e essência anticristãos e antitradicionalistas, é comum que ataquem valores fundamentais do cristianismo, seja em forma de combate direto aos seus dogmas, seja em forma de “ressignificação” (distorção) das doutrinas cristãs.

Como efeito previsto, a disseminação de mentiras da esquerda política em relação ao cristianismo, incluindo aí a Igreja Católica, é muito grande. Por trás das mais diversas críticas “progressistas” (esquerdistas) ao catolicismo há, portanto, uma série de mitos, exageros, distorções e desonestidade. Na releitura progressista do mundo, a religião geralmente figura como opressora e precisa, ou ser destruída, ou ser reformulada. A religião deve progredir, assim como o homem “tem” progredido (segundo a concepção secularista da esquerda). Logo, nessa “nobre” luta pelo progresso da religião, vale muito à pena representar sua ortodoxia da pior maneira possível.

Nesse contexto, o conservador começa a notar as injustiças do progressismo em relação ao cristianismo e à Igreja Católica. Nota também que a mesma tem procurado se manter firme na defesa da família tradicional, da moral judaico-cristã, das virtudes cristãs; sólida na luta contra o aborto, contra o relativismo da verdade e da moral, contra a degradação da humanidade. Descobre a existência de diversos intelectuais de peso que foram/são católicos romanos. Então, se envereda por um estudo do catolicismo dentro do ponto de vista católico, o que o colocará de frente para o pressuposto básico que sustenta toda a religião romanista: ela teria sido fundada por Jesus Cristo. Se isso é real, o fato implica que ela é a única Igreja verdadeira de Cristo, o que significa também que seu dogma de infalibilidade doutrinária está correto e que ela é a única instituição da terra apta e autorizada à interpretar a Bíblia.

No momento em que o conservador aceita esse pressuposto e suas decorrências, seu conservadorismo se mescla com o catolicismo romano e suas lutas conservadoras passam a ser, na realidade, lutas católicas. Toda a sua visão é remodelada. A ICAR passa a ser a origem e o bastião do conservadorismo e o que quer que se distancie dela resultará em miséria e destruição para o mundo. O conservador sente que descobriu a ortodoxia da ortodoxia em todas as áreas da vida. O catolicismo romano, ou romanismo, se torna a chave de tudo e o suprassumo do bem.

É a partir desse ponto que emerge, na cabeça do novo conservador católico, uma análise do protestantismo como um movimento proto-revolucionário. Ele teria espalhado um “germe” responsável pelo surgimento posterior de todas as ideias revolucionárias e antibíblicas do iluminismo, da revolução francesa, do marxismo, do positivismo, do feminismo, do fascismo, do nazismo, etc.

A visão atual de milhares de Igrejas surgindo a cada esquina, com doutrinas diferentes, muitas abusando de seus fieis, serve para dar gás à análise. A raiz de todo o mal social que a esquerda nos faz hoje é o protestantismo, pensará o conservador convertido ao romanismo. Relativismo, niilismo, hedonismo, depravação moral e cultural – tudo seria resultado da quebra de reconhecimento da ICAR como a (única) Igreja de Cristo, algo iniciado pelo protestantismo. Afastar-se da ICAR torna-se, para esse conservador, não só um pecado, mas um perigo social. E, obviamente, sua visão do passado, de quando a ICAR tinha maior força e influência, será muito positiva.

Se, em seu desenvolvimento religioso, esse conservador tornar-se inteiramente fiel ao catolicismo, terminará por entender que a única sociedade boa e válida é uma sociedade católica.

Como eu disse, percebo esseprocesso ocorrendocada vez mais frequentemente no meio conservador. Por outro lado, tenho visto com frequência também progressiva a aproximação de muitos conservadores às doutrinas calvinistas ou luteranas (geralmente chamadas de “fé reformada”, as quais sustentam sempre algum tipo de predestinação divina quanto à salvação individual da alma). Esses conservadores muitas vezes passam por um processo semelhante ao do converso ao catolicismo romano, mas crendo que a ICAR desviou-se da santa doutrina ao longo da história, buscam a ortodoxia dentro do protestantismo. Observando as chagas que hoje assolam o mundo protestante (como o neopentecostalismo, por exemplo) e a pobreza intelectual dos evangélicos modernos em geral, voltam-se aos primeiros grandes homens da reforma, doutos, instruídos, sérios e bíblicos. Ali parece estar a verdadeira doutrina, que retomou os princípios abandonados pelo romanismo e que nos convidaria hoje a retomar os princípios abandonados pelos movimentos evangélicos modernos.

O que se percebe em comum nos dois tipos de conservadores é um desejo genuíno de retornar à pureza do evangelho, a uma ortodoxia perdida no mundo, e de quebra moldar toda a sua visão política e cultural através desse resgate das origens. É o conservador, antes secular, buscando o mais puro e primevo conservadorismo moral, espiritual e religioso.

Por sincera que possa ser a busca de ambos os grupos, percebo que dois elementos muito importantes têm sido negligenciados na pesquisa. Um deles é o judaicidade ou o judaísmo da Igreja do primeiro século, tema essencial para se chegar a uma conclusão sobre o que seria a real ortodoxia cristã. O outro elemento é a lógica, fator que deve, necessariamente, estar presente em todas as doutrinas da Igreja verdadeira. Afinal, Deus é um ser racional e suas doutrinas refletem isso. A lógica é um atributo intrínseco de Deus assim como também o é o amor e a moral.

O objetivo desse texto, portanto, é destrinchar esses dois pontos, apontando as falhas dos pressupostos romanistas e de seus rivais reformados na busca da ortodoxia. O texto apontará ainda as falhas dos judaizantes do primeiro século (o que se estende para os judeus messiânicos dos dias atuais), traçando uma distinção clara entre o que seria oque chamo de judaico-cristianismo (seguido pelos discípulos de Cristo e por Paulo) e os movimentos defensores de todo o regime da Torá no âmbito da Nova Aliança.

O título do artigo traz em si a defesa central do texto: o romanismo não foi instituído por Jesus, mas desenvolvido (portanto, inventado) ao longo dos anos até tomar o corpo doutrinário que tem hoje. Da mesma forma, os movimentos protestantes que surgiram com a proposta de retornar à pureza doutrinária que o romanismo abandonou, trariam um corpo doutrinário não plenamente reformado, ainda impuro, com reminiscências errôneas do romanismo, e com novas impurezas. Tanto o romanismo quanto seus rivais descendentes, portanto, seriam invenções, no sentido de não terem o corpo original de doutrinas da Igreja primitiva, mas um que gradualmente se distanciou da ortodoxia apostólica. Isso não quer dizer, evidentemente, que nas igrejas romana e protestantes, no geral, não haja verdades, virtudes, acertos e grandes feitos. O artigo pretende ser equilibrado e realista, não caindo na tentação de pintar a caveira de nenhuma instituição, tampouco de elevá-las a uma perfeição que não existe.

Finalmente, esse texto não será uma defesa de movimentos antidenominacionais, os quais gostam muito de criticar a todos se dizendo fora do sistema. Não haverá aqui uma defesa de movimentos ou grupos desigrejados, de evangelhos liberais, “anarcocristãos” contrários à hierarquia eclesial, de arautos do cristianismo restrito aos pequenos grupos de reunião (“células”), etc. Tais movimentos não estão fora de sistemas. Na verdade, eles formam sistemas próprios, com doutrinas próprias e líderes próprios. Mudam os nomes e algumas formas de fazer as coisas, mas na essência formam sistemas. O texto não dará munição a esses grupos. Ele simplesmente mostrará o que o cristianismo era no início e o que a lógica pode nos ensinar.

1. A judaicidade da Igreja primitiva

1.1. Uma congregação universal

A instituição que popularmente chamamos de Igreja Católica, no mundo ocidental, tem um nome que vale à pena ser analisado: Igreja Católica Apostólica Romana. Este é um bom ponto de partida para os estudos desse artigo. Isso porque essa instituição entende ser a Igreja instituída por Jesus Cristo no capítulo 16 de Mateus, assim como também Igreja Católica Apostólica Ortodoxa entende sobre si mesma. Desta maneira, torna-se essencial analisar se a Igreja fundada por Cristo em Mateus 16 tem realmente o perfil expresso por uma dessas instituições, a começar pelas características enunciadas por seus próprios nomes. Iniciaremos as análises, como já dito, pelo nome da instituição romana. Posteriormente mencionaremos brevemente a instituição ortodoxa, que é mais predominante no oriente do mundo.

A palavra “Igreja” advém do grego “ekklesia”, que significa literalmente “chamados para fora”. Era uma palavra aplicada a assembleias, congregações, em suma, reuniões de pessoas em algum lugar público com uma finalidade específica. Presumivelmente, a ideia presente no termo é de que tais pessoas foram chamadas para fora de suas casas ou locais de origem no intuito de se reunirem. No contexto cristão, a palavra foi utilizada para se referir às reuniões locais de cristãos ou, de uma maneira geral, a todo o conjunto de cristãos espalhados pela face da terra. Esse sentido mais geral do termo “ekklesia” explica o uso da palavra “Católica”, que significa “Universal”. Assim, Igreja Católica pretende significar congregação universal. É o somatório de todos os crentes em Cristo, ou ainda, de todas as congregações locais de crentes em Cristo. Já o terceiro termo que compõe o nome da instituição, “Apostólica”, pretende demonstrar que essa igreja possui raízes na autoridade dos apóstolos de Jesus Cristo, tendo sido fundada por eles.

O quarto termo é, sem dúvida, o mais importante para nossa análise. A instituição que se diz igreja, católica e apostólica, também se diz romana. Segundo sua doutrina, Jesus instituiu Pedro como o primeiro líder mundial da Igreja, popularmente conhecido como papa. O apóstolo teria se instalado na cidade de Roma, tornando-se bispo da igreja que nela se reunia. Sendo ele o primeiro líder máximo da Igreja e o líder da congregação de Roma, todos os bispos de Roma que o sucederam foram também bispos mundiais, isto é, papas. Assim, essa instituição ganha o nome de romana porque teria sido na igreja local de Roma que o primeiro papa se instaurou, tornando-a sede do cristianismo.

Permita-me refletir um pouco sobre isso. De fato, Jesus instituiu uma Igreja católica, já que ela não é formada por pessoas de uma só região, cidade ou nação, mas por todos os crentes espalhados pelo mundo. Também é fato que essa Igreja instituída por Cristo é apostólica, pois foi aos seus discípulos que Ele outorgou a tarefa de pregar o evangelho pelo mundo, fazendo crescer essa congregação mundial. Mas essa Igreja fundada por Cristo em Mateus 16 seria romana? Se sim, em qual sentido? Num sentido geográfico, étnico ou espiritual? Ou em todos eles? O que o evangelho de Jesus Cristo e a sua Igreja tem a ver com Roma? Essas questões irão orientar os próximos pontos do artigo.

1.2. O judaísmo étnico e o primado de Jerusalém

Em um sentido étnico ou geográfico estrito, a ideia de que a Igreja mundial fundada por Cristo é romana não faz sentido. Ora, se a Igreja fundada por Cristo é universal, não pode ser romana, ou grega, egípcia, persa ou israelita. Ela é universal, o que engloba congregações cristãs de todas as cidades e nações. Em um sentido geográfico menos estrito, a Igreja poderia ser romana por sua origem em Roma ou ainda por sua sede nessa cidade, como já dito há pouco. Contudo, essas duas ideias esbarram em algumas dificuldades históricas.

A Igreja cristã surge em Israel, mais precisamente na cidade de Jerusalém, cidade santa do judaísmo. É fundada por Jesus, um israelita. Todo o ministério terreno de Jesus ocorreu em Israel. Ele jamais colocou o pé na cidade de Roma, nunca ordenou que seus discípulos fizessem dela a congregação mais importante, não deu qualquer sinal de que daria a essa congregação autoridade sob as demais, não lançou profecia alguma sobre a futura relevância espiritual romana, nem sobre a conversão dessa cidade em sede cristã ou algo do gênero.

Da mesma maneira, os discípulos de Jesus eram todos israelitas e viveram em Israel durante os três anos de ministério do mestre. Quando Jesus ascende aos céus (tendo já morrido e ressuscitado), os discípulos seguem as ordens de Cristo indo para Jerusalém esperar a unção prometida do Espírito Santo (At 1:1-14). E é em Jerusalém, capital de Israel e cidade santa do judaísmo, numa festa judaica (o Pentecostes), que eles iniciam a pregação do evangelho (At 2:1-41).

Então, temos que a Igreja é instituída em Israel por um israelita (Jesus)em Israel. Esse israelita comissiona seus discípulos, também israelitas, para iniciarem o crescimento da Igreja em Israel, pregando, a princípio, para outros israelitas. Nada de Roma até aqui.

Indubitavelmente, a relevância da cidade de Jerusalém para a Igreja cristã primitiva era grande. Todo o ministério apostólico narrado nos primeiros capítulos de Atos se dá em Jerusalém. Nela surgem os primeiros conversos ao evangelho, a primeira congregação cristã (At 2:41-42, 4:32, 5:14-16, 6:7)e um movimento constante de prodígios e sinais pelos apóstolos (At 2:43, At 5:12). Os conversos tinham por hábito frequentar o templo judaico, já que eram todos judeus (At 2:46). O mesmo hábito era mantido por todos os apóstolos (At 3:1-3, 5:20-21, 5:42).

Por ser a cidade onde o evangelho primeiro começou a ser pregado e onde também os discípulos do Senhor residiam, Jerusalém logo se tornou o centro do movimento cristão, tendo assim primeira e mais influente Igreja primitiva. Lucas, o autor inspirado de Atos, descreve que pessoas de cidades vizinhas iam a Jerusalém para serem curadas pelos apóstolos (At 5:16), que crescia o número de discípulos na capital judaica, incluindo sacerdotes (At 6:7) e que o aumento de cristãos na cidade chegou a gerar um problema administrativo para os discípulos (At 6:1). Perceba que até aqui não há nada de Roma, mas apenas a capital de Israel, sede do judaísmo.

Os primeiros cristãos (todos judeus) sóse espalharam para fora de Jerusalém de maneira ostensiva após o martírio de Estevão. Afirma Lucas: “Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a Igreja de Jerusalém; e todos, exceto dos apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria” (At 8:1). Os teólogos calculam que essa primeira perseguição ocorreu alguns anos após a ascensão de Cristo. Ou seja, nos primeirosanos de Igreja, os cristãos em peso (incluindo os doze apóstolos) se concentraram na cidade de Jerusalém. Quando, enfim, há essa dispersão, ela ocorre ainda dentro do território israelita e os apóstolos permanecem em Jerusalém.

Mais adiante, Lucas descreve: “Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João” (At 8:14). Essa é a primeira vez que o livro de Atos relata a saída de apóstolos de Jerusalém. No entanto, depois de pregarem em diversas aldeias de Samaria, os dois voltaram para a capital judaica (At 8:25).

No capítulo seguinte, Lucas narra como Paulo (já converso) fugiu de judeus que queriam matá-loem Damasco, indo para Jerusalém (At 9:26-30). Na epístola aos Gálatas, o apóstolo explica que ficou três anos em Damasco e que depois desse tempo foi a Jerusalém para ver Pedro, com o qual ficou quinze dias (Gl 1:18). Ou seja, mesmo depois que os apóstolos começaram a se aventurar fora de Jerusalém, o fato de sempre voltarem fazia com que a cidade fosse um ponto de encontro com os apóstolos. Embora, na ocasião, Paulo afirme que não viu outros apóstolos a não ser Tiago (talvez porque fora curta sua estadia na cidade), ele diz mais adiante que voltou à Jerusalém catorze anos depois (deduz-se que para o Concílio de Jerusalém), conhecendo assim os demais apóstolos (Gl 2:1-10).

Seguindo o livro de Atos, Lucas volta a falar de Pedro em algumas viagens missionárias fora de Israel por locais onde o diácono Filipe havia pregado.Após tais viagens, Pedro retorna a Jerusalém, onde permaneciam outros apóstolos (At 11:1-3). Trata-se de mais um indício do movimento de ida e volta dos doze apóstolos em relação à Jerusalém.

O final do capítulo 11 de Atos traz mais informações interessantes. Lemos que “os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estevão se espalharam até a Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus” (At 11:19). Perceba que os primeiros cristãos, que eram judeus e haviam saído e Jerusalém em fuga, resolveram ir para territórios gentios, mas a princípio se limitavam a pregar o evangelho apenas a outros judeus que já viviam fora de Israel. Isso demonstra que, por serem judeus, ainda eram muito influenciados por um pensamento de separação entre judeus e gentios.

No entanto, o versículo seguinte diz que alguns do Chipre e de Cirene (provavelmente uma minoria) foram até Antioquia e pregaram também aos gregos (At 11:20). Lucas demonstra aqui mais uma vez a importância da Igreja de Jerusalém ao dizer: “A notícia a respeito deles chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até Antioquia” (At 11:22). Como se vê, a Igreja de Jerusalém funcionava como sede da Igreja mundial, enviando apóstolos e autoridades constituídas por eles para os locais onde o evangelho havia chegado. Os principais, contudo (em especial, os doze) sempre retornavam à sede. E até o momento, nada de Roma.

No capítulo 15, temos mais um relato interessante para nosso estudo. O livro narra uma grande dissensão entre Paulo, Barnabé e alguns judeus cristãos que desejavam impor à circuncisão aos gentios conversos. Lemos o seguinte: “Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros com respeito a essa questão” (At 15:2).

Como fica bem claro na leitura desse trecho, os apóstolos continuavam na cidade de Jerusalém e ela permanecia com grande influência e autoridade, sendo entendida como a Igreja-Matriz do cristianismo. Era nessa Igreja que se encontrava a liderança mundial da Igreja, os discípulos diretos de Cristo. Assim, Jerusalém era a instância suprema para a resolução de problemas e a coordenação de todas as igrejas locais. Nada mais natural que a questão da circuncisão fosse resolvida lá, entre os apóstolos e os presbíteros. Ora, calcula-se que este episódio tenha ocorrido entre os anos de 48-51 d.C. Isso quer dizer a Igreja de Jerusalém exercia uma posição de liderança que já duravapelo menos mais de 15 anos. E nada de Roma.

O relato diz em seguida que Paulo e Barnabé foram muito bem recebidos pela Igreja de Jerusalém, os apóstolos e os presbíteros, mas que ao narrarem o caso, receberam grande oposição de alguns fariseus que haviam crido em Cristo. Eles também entendiam que os gentios deveriam ser circuncidados e guardar toda a Torá. Em vista disso, os apóstolos e presbíteros fizeram o primeiro concílio da Igreja para definir o tema, resolvendo, ao fim de muita discussão, que a circuncisão não deveria ser imposta aos gentios conversos. A decisão é descrita em uma carta e enviada, por meio de Paulo e Barnabé, às igrejas de Antioquia, Síria e Cicília (At 15:22-29).

Em Atos 16, Lucas cobre a segunda viagem missionária de Paulo (em companhia de Silas) por locais de maioria gentílica. No verso 4 ele afirma: “Ao passar pelas cidades, entregavam aos irmãos, para que as observassem, as decisões tomadas pelos apóstolos e presbíteros de Jerusalém”. Isso enfatiza que posição de liderança da Igreja de Jerusalém na Igreja Mundial.

No capítulo 21, depois de mais uma viagem missionária, Paulo volta a Jerusalém para uma visita. Ao que parece, os apóstolos não estavam mais todos reunidos na cidade (já que não são citados), mas apenas os presbíteros da Igreja e Tiago, irmão de Jesus, que não era um dos doze. Tiago faz uma afirmação interessante:

“Bem vês, irmão, quantas dezenas de milhares há entre os judeus que creram, e todos são zelosos da lei; e foram informados a teu respeito que ensinas todos os judeus entre os gentios a apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não devem circuncidar os filhos, nem andar segundo os costumes da lei” (At 21:20-21).

Esse evento ocorre por volta dos anos 58-60 d.C. Daqui se depreende que a Igreja de Jerusalém permanecia com grande número de membros, porém havia se engessado no judaísmo rabínico e se deixado contaminar fortemente pelos judeus cristãos partidários da circuncisão e da observância completa da Torá. Tiago, líder dessa congregação, não parecia muito interessado em se indispor com seus irmãos judaizantes. Com a saída dos apóstolos de Jerusalém, a tendência era que essa congregação se engessasse mais no judaísmo rabínico, criando uma imensa distância entre eles e as igrejas gentílicas, cada vez mais numerosas.E sem mais os apóstolos reunidos por lá, o combate a essa postura fechada se tornaria mais rara e difícil.

Podemos postular, portanto, que apenas no início dos anos 60 d.C. a Igreja de Jerusalém começaria a perder relevância, em função de sua cristalização no judaísmo rabínico e da (provável) saída de todos apóstolos para outras regiões do mundo. O martírio do próprio Tiago, datado em 62 d.C., será mais uma etapa nessa perda de influência da Igreja de Jerusalém sobre o mundo. O golpe final se dará no ano 70 d.C. com a destruição do templo judaico pelos romanos, num ataque que levou à morte milhares de judeus e a mais uma extensa dispersão dos mesmos por outras nações.

Voltando à questão principal, é Jerusalém e não Roma que exerce primazia e influência sobre a Igreja mundial nas primeiras décadas de cristianismo. É na cidade de Jerusalém que os doze apóstolos residem, se reúnem e pregam o evangelho durante muito tempo, fazendo da cidade santa do judaísmo a sede do movimento cristão. Uma pesquisa pelos termos “Roma” e “Jerusalém” no Novo Testamento revela, por exemplo, que Jerusalém é citada143 vezes, ao passo que Roma, apenas 8.Mesmo retirando os evangelhos dessa pesquisa e contando só a partir de Atos, a diferença é notável. O nome Jerusalém consta 76 vezes nesse espaço, enquanto Roma ainda 8. Nenhuma das citações à Roma, por sua vez, traz qualquer sinal da liderança ou do primado dessa Igreja. Fica claro que ela não foi a primeira congregação cristã do mundo e, pelo menos nas primeiras três décadas de Igreja mundial, também não foi a congregação mais importante e líder.

1.3. O judaísmo como religião

Se a ideia de que Jesus Cristo fundou uma Igreja romana não se sustenta no sentido étnico e geográfico(já que a primeira congregação surge em Jerusalém e se torna sede cristã por pelo menos três décadas), no sentido religioso que se poderia dar ao termo há ainda menos sustentação para o conceito. O cristianismo não surgiu como uma nova religião, mas como uma ramificação do judaísmo – a ramificação verdadeira, diga-se.

O judaísmo, se seguido até as últimas consequências, desemboca no cristianismo, não uma nova religião, mas um desenvolvimento natural, inevitável e preanunciado da religião hebraica/judaica. Judaísmo e cristianismo deveriam ter sido sempre uma e a mesma coisa. Desta forma, quando Jesus Cristo institui sua Igreja em Mateus 16, não estava ali criando uma nova religião, romana, com preceitos distintos. Religiosamente falando a Igreja surge judaica porque é essa a religião de Jesus e de seus apóstolos. Vale destrinchar esse ponto.

Jesus foi criado desde criança nos preceitos do judaísmo. Foi circuncidado, aprendeu as Escrituras Judaicas e peregrinou em Jerusalém nas principais festas religiosas a partir dos doze anos de idade. Foi um judeu devoto durante toda a sua vida. Servia somente a Yahweh, frequentava as sinagogas, pregava conforme a Torá e os Profetas judaicos, enfatizava a obediência a Deus e guardava o sábado. Ademais, Cristo era perfeito em todos os mandamentos (quer morais ou ritualísticos), já que sua missão envolvia viver e morrer como um homem perfeito para servir de substituto também perfeito para toda a humanidade (Gl 4:4-5; Hb 4:14-15; 5:7-10; 7:26-27)

Em sua primeira grande pregação relatada na Bíblia, Jesus fez questão de enfatizar que não viera para abolir a Torá e os Profetas, mas cumprir (Mt 5:17-20). E continuou fazendo todo um discurso pautado nas Escrituras, onde não só reafirmava preceitos morais conhecidos dos judeus, como os ampliava. Jesus jamais rechaçou o judaísmo ou criticou preceitos de sua religião. A razão era simples: Ele era o próprio Deus encarnado, o criador de cada preceito judaico. Suas críticas eram sempre ao modo errôneo dos mestres da Torá de interpretarem as Escrituras, bem como a hipocrisia de grande parte da liderança do seu tempo.

Jesus se opunha às tradições extrabíblicas, não a princípios escriturísticos. As acusações de que descumpria a lei, incitava as pessoas à desobediência, blasfemava contra Deus e transgredia o sábado eram falsas. Era a visão que os mestres corruptos queriam vender dele, não a realidade. Tais mentiras inventadas a respeito de Cristo se estenderiam até o seu julgamento e condenação pelo Sinédrio, antes da crucificação. Mas a realidade é que Jesus era perfeito em todas as coisas.

Jesus morre, ressuscita e ascende aos céus. Mas seus discípulos e primeiros conversos continuam agindo como judeus. Já vimos anteriormente que era hábito, em Jerusalém, os apóstolos e primeiros conversos irem ao templo. Mas não era apenas na cidade santa do judaísmo que os cristãos agiam dessa forma. Sabe-se que as sinagogas eram locais de reunião religiosa por parte dos judeus. Existiam tanto dentro de Israel como em cidades pagãs onde viviam judeus da diáspora. Ora, Lucas, em Atos, menciona a ida de cristãos à sinagogas judaicas de pelo menos nove cidades pagãs: Damasco (At 9:2), Salamina (At 13:5), Antioquia (At 13:14), Icônio (At 14:1), Tessalonica (At 17:1-4), Bereia (At 17:10), Atenas (At 17:16-17), Corinto (At 18:1-4) e Éfeso (At 18:19). O historiador também cita o costume de Paulo e seus companheiros de dedicarem o sábado a Deus nas sinagogas (At 13:16, 13:42-22, 17:1-3 e 18:1-4).

O apóstolo Paulo, quando trabalhou confeccionando tendas em Corinto, disponibilizava justamente o sábado para pregar o evangelho o dia inteiro. E mesmo após se irritar com judeus incrédulos e dizer que a partir dali focaria nos gentios (At 18:6), ele torna a pregar em sinagogas, na cidade de Éfeso, permanecendo ali por dois anos e convertendo tanto judeus naturais quanto gregos que iam à sinagoga (At 18:18-19 e 19:8-10).

Em Filipos, alguns anos antes de Paulo ir para Éfeso, uma passagem enfatiza que Paulo e seus companheiros ficaram em Trôade por alguns dias e que no sábado sairam do centro da cidade, procurando algum lugar calmo, apropriado para oração (At 16:11-13). A julgar pelo costume de Paulo e os demais cristãos, se houvesse sinagoga na cidade, eles teriam ido a ela, o local mais apropriado para oração, por sinal. Trôade não devia contar com uma sinagoga, o que levou aqueles crentes a desejarem sair do movimento da cidade, indo para um local isolado. É curioso que Lucas enfatize o fato de ser sábado neste dia. O fato não parece ter muita importância para a narrativa, a não ser que se considere que aquele dia era realmente distinto dos demais.

Em suma, os primeiros cristãos (incluindo o apóstolo Paulo), não se sentiam de uma nova religião, tampouco achavam que a pregarem sobre o Messias Jesus estavam indo contra a fé judaica. Eles frequentavam sinagogas normalmente e seus conversos também continuavam frequentando sinagogas normalmente. O cristianismo, longe de ser uma nova religião, era entendido pelos primeiros cristãos e pelos não-cristãos como um tipo de judaísmo, tal como era o judaísmo farisaico, o saduceu, o zelote e o essênio. Era uma mesma fé, embora com interpretações diferentes.

Ainda sobre o apóstolo Paulo, suas defesas contra acusações de judeus incrédulos também denotam uma forte sintonia com os hábitos judaicos. Ele reafirma seu judaísmo étnico e suas raízes religiosas judaicas (At 22:3); considera-se fariseu (At 23:6); afirma estar sendo julgado apenas por crer na mesma coisa que criam seus acusadores: a ressurreição dos mortos (At 23:6);  ressalta que acredita em tudo o que está na Torá e nos Profetas, incluindo a ressurreição – tal como os fariseus que o acusavam (At 24:14-15); deixa claro que foi pego por seus oponentes sem estar transgredindo a Torá e ainda desempenhando uma prática judaica (At 24:17-19) e torna a dizer, por fim, que está sendo julgado apenas por crer na ressurreição (At 24:20-21).

Em Atos 25:7, vários judeus incrédulos rodeiam o apóstolo e o acusam, perante o governante romano Festo, de várias transgressões que não podiam provar. Paulo responde, no verso 8: “Nenhum pecado cometi contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra Cesar”. Continua nos versos 10 e 11:

“Estou perante o tribunal de César, onde convém seja eu julgado; nenhum agravo pratiquei contra os judeus, como tu bens sabes. Caso, pois, tenha eu praticado algum mal ou crime digno de morte, estou pronto para morrer; se, pelo contrário, não são verdadeiras as coisas de que me acusam, ninguém, para lhes ser agradável, pode entregar-me a eles” (Atos 25:10-11).

Fica claro que Paulo tinha a convicção sincera de não estar transgredindo ponto algum do judaísmo. Sua visão, como a dos demais cristãos, não era a de um rompimento com a religião judaica e a aceitação de uma nova religião. Era, sim, da manutenção de uma mesma religião, mas agora com a revelação plena do Messias.

Podemos averiguar esse mesmo senso de pertencimento à religião judaica no apóstolo Pedro. No capítulo 10 de Atos, quando Pedro tem a visão dos animais imundos e Deus lhe ordena que se alimente deles, responde: “De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum ou imunda” (At 10:14). A visão era uma parábola, conforme a continuação dos capítulos 10 e 11 demonstram. Os animais imundos simbolizavam os gentios e a instrução da parábola era que os judeus deveriam pregar o evangelho a estes, sem distinção. Para os propósitos deste artigo, contudo, o que importa é enfatizar que Pedro continuava guardando a dieta alimentar judaica. E não há qualquer sinal no texto de que o sonho se referia a literalmente comer alimento impuro ou que Pedro entendeu dessa maneira.

O apóstolo João também dá indícios de que ainda se sentia um judeu (ou que Jesus queria que ele se sentisse assim). Em Apocalipse 2:9 e 3:9, descrevendo as palavras que recebeu de Jesus, utiliza os termos “Sinagoga de Satanás” e “judeus que a si mesmo se declaram judeus e não são” para criticar uma classe de desobedientes nas igrejas de Esmirna e Filadélfia. Ora, o livro de Apocalipse foi escrito quase no fim do primeiro século. O templo de Jerusalém já havia sido destruído e a separação entre judeus e cristãos se encontrava bastante avançada. João tinha tudo para endossar a cisão entre judaísmo e cristianismo, vendo o segundo como uma nova religião, distinta da religião judaica. Entretanto, ele critica uma classe de pessoas por serem falsos judeus e sinagoga de Satanás, o que significa, evidentemente, que aqueles que estavam corretos nas igrejas de Esmirna e Filadélfia se constituíam verdadeiros judeus e sinagoga de Deus.

O Apocalipse está repleto de termos e conceitos judaicos advindos dos livros proféticos do Antigo Testamento. Parece haver não só uma visão do judaísmo como a religião dos primeiros cristãos como um cuidado, sobretudo nesses dois textos, de mostrar aos cristãos que eles não deveriam perder suas raízes judaicas. Não me refiro aos erros, preconceitos e tradições humanas que se infiltraram no judaísmo, mas sim àquilo que compunha, de fato, o conjunto de princípios dados por Deus ao povo judeu. Embora Deus já não tivesse um povo no sentido étnico, com uma pátria, uma língua e um governo teocrático, o judaísmo como religião permanecia. Trabalharemos melhor esse tema no decorrer dessa série.

O apóstolo Tiago, irmão de Jesus, também demonstrava manter fortes laços com o judaísmo, conforme já mencionado no tópico passado. Lembremos de suas palavras ao apóstolo Paulo, por volta do ano 60 d.C.: “Bem vês, irmão, quantas dezenas de milhares de judeus que creram, e todos são zelosos da lei” (At 21:20).

Essa breve análise demonstra que, no sentido religioso, não havia um sentimento de que havia se criado algo novo e distinto do judaísmo. Jesus fazia nova todas as coisas, mas não deixava de ser o Messias esperado pelo judaísmo, a verdadeira religião. Numa visão teológica correta dos fatos, eram os judeus não-cristãos que estavam deixando de lado o judaísmo, não o oposto. Os judeus cristãos e os novos conversos que estavam abraçando de fato o judaísmo, tornando-se judeus verdadeiros. Sob esse prisma, a ideia paulina de Israel espiritual e promessa abraamica sobre todos, bem como as críticas de João contra os falsos judeus ganham muito mais sentido. Sempre houve um só povo de Deus e uma só religião verdadeira. Por conseguinte, a Igreja, em sentido religioso, só poderia ser judaica, nunca romana. Uma vez que o corpo romano de doutrinas é distinto do corpo judaico-cristão de doutrinas (isto é, o corpo apostólico), segue-se que o romanismo é uma nova religião e sua Igreja não pode ser a Igreja instituída por Cristo.

Como fica claro, a Igreja não poderia ser romana nem no sentido étnico e geográfico, nem no sentido religioso. Pelo menos não desde o início. Se a busca pela ortodoxia é a busca pela doutrina original (ou a mais original depois de algum período prévio de desenvolvimento), o fato da Igreja mundial primitiva não ser romana, mas judaica, torna o argumento católico romano muito frágil. Ao que tudo indica, a romanização da Igreja é obra posterior e traz consigo uma espécie de nova religião, com um corpo de doutrinas não mais judaico-cristão, porém gentio-cristão. Mas para concluir isso é preciso ainda analisar outros pontos importantes, tal como a interpretação do texto de Mateus 16, a alegação romanista de que o apóstolo Pedro foi bispo de Roma, a distinção entre as doutrinas judaicas e as católicas romanas, o nível de coerência bíblica e lógica das doutrinas romanistas e o erro do movimento judaizante/pró-circuncisão (traçando uma distinção mais clara entre judaizantismo e judaico-cristianismo). Por uma questão de espaço, essas questões ficarão para as próximas partes dessa série.

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Artigos da Série:

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6
Parte 7
Parte 8

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